quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A CONSOLIDAÇÃO DA DOUTRINA NA TEOLOGIA HODIERNA - Por André Rodrigues






Nessa expectativa final, é importante dizermos que a doutrina do Tríplice Ofício de Cristo está presente entre os teólogos hodiernos[1]. Entretanto, ela é transmitida de maneira superficial[2], com sua importância menosprezada. No início, parecem ser unânimes no desenvolvimento introdutório do assunto, com poucas exceções. Berkhof e Hodge são semelhantes; Strong e Grudem parecem correlatos; Soares e Mueller partem do mesmo pressuposto: o destaque do múnus tríplex. Quanto à doutrina, Strong diz:


As Escrituras representam os ofícios de Cristo em número de três: profético, sacerdotal e real. Apesar de que estes termos derivam de relações humanas concretas, expressam idéias perfeitamente distintas. O profeta, o sacerdote e o rei do V.T., diferenciavam-se, mas designavam prefigurações daquele que devia combinar todas as variadas atividades em si mesmo, e forneceria a realidade ideal, da qual eram símbolos imperfeitos. (2003, p. 370).


 Soares denomina essa doutrina de “O Munus Triplex”. Assevera que se trata da doutrina dos três ofícios de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei (2008, p. 97, grifo do autor).  Ainda outros, referem-se a ela da mesma maneira.


 Grudem diz-nos:

Os três cargos mais importantes que poderiam existir para o povo de Israel no Antigo Testamento eram: o profeta (como Natã, 2Sm 7.2), o sacerdote (como Abiatar, ISm 30.7) e o rei (como Davi, 2Sm 5.3). esses três ofícios eram distintos. Os profetas falavam as palavras de Deus ao povo; o sacerdote oferecia sacrifícios, orações e louvores a Deus em favor do povo; e o rei governava o povo como representante de Deus. Esses três ofícios prefiguravam a própria obra de Cristo de várias maneiras (1999, p. 523, grifos do autor).


Pertence a Mueller a declaração abaixo:


A encarnação do Filho de Deus realizou-se para que se pudesse cumprir a obra da redenção determinada por Deus desde a antiguidade (Jo 17.4; 3.16; Mt 18.11; Lc 19.10; I Tm 1.15). A Confissão de Ausburgo[3] declara (Art. III): “O Verbo, isto é, o Filho de Deus se fez ser humano, nascido da bem-aventurada virgem Maria [...] para ser a oblação não só pela culpa original, mas, ao mesmo tempo por todos os demais pecados e assim nos reconciliar com o Pai”. Logo, tudo o que Cristo fez, no seu estado de humilhação como homem-Deus[4] (Lc 1.30,31; Mt 1,21,25; Lc 2.21), e o que ainda faz como tal, em seu estado de exaltação, pertence ao seu divino ofício ou obra. [...] Daí falarmos de um tríplice ofício de Cristo: a) o profético (munus propheticum), b) o sacerdotal (munus sacerdotales) e c) o real (múnus regium) O Messias foi, já no Antigo Testamento, descrito como divino Profeta, Sacerdote e Rei. Apesar de que os três ofícios jamais estiveram divididos ou separados em Cristo, perseveraremos nessa classificação que acabamos de fazer (múnus tríplex) para fins de maior clareza na apresentação da obra de Cristo (MUELLER, 2004, p. 295, 296, grifos do autor).   



Não se faz necessário expormos um a um de forma pormenorizada, pois isso seria por demais repetitivo. O importante é mostrar que a doutrina do Tríplice Ofício de Cristo está também presente na teologia de nossos dias.
Sem a exposição dessa doutrina acima, seria difícil compreendermos os ditames estabelecidos por Deus, visto que ela tem plena conexão com o conhecimento que possuímos da Palavra de Deus (profeta), da obra salvívica de Jesus (sacerdote) e de nosso futuro regido com perfeição eterna (rei). 






[1] Esequias Soares; Ciro Sanches Zibordi; Myer Pearlman; Eurico Bergstén; Oscar Cullman; e os reformados Wayne Grudem; Louis Berkhof; Charles Hodge; Robert Letham; Augusto Hopkins Strong; dentre outros.        

[2] Raro, um ou outro destes supracitados alonga-se em determinado ofício. Strong, por exemplo, se detém com brevidade acerca do ofício sacerdotal em detrimento dos outros (2003, p. 370ss).

[3] Andrade (2007, p. 109), afirma ser a declaração básica da fé luterana. Redigida por Felipe Melanchthon, foi apresentada à Dieta de Augusburg em 1530. Melanchton (1497-1560) foi um dos mais diretos colaboradores de Martinho Lutero (ANDRADE, 2007, p. 398).

[4] Do gr. tard. Theántropos (AURÉLIO).



Artigo extraído de: RODRIGUES, André. O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei. 2011, Editora Nossa Livraria - PE


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A CONSOLIDAÇÃO DA DOUTRINA DOS OFÍCIOS NA HISTÓRIA - Por André Rodrigues

Aqui, passaremos a desenvolver a ideia desses ofícios na história. Os reformados[1] costumam falar de três ofícios com relação à obra de Cristo[2]. Berkhof (2004, p. 327) diz-nos que “Calvino[3] foi o primeiro a reconhecer a importância de distinguir os três ofícios do Mediador e chamar a atenção para isto num capítulo específico das suas Instituta[4]”. Entretanto, não deixa de fazer menção de que os chamados primeiros Pais da Igreja ressaltavam esses diferentes ofícios na pessoa de Jesus[5]. Temos, por exemplo, o testemunho de Euzébio de Cesaréia, “Pai da História Eclesiástica (263-340) ‘que’ propôs-se a escrever desde os primórdios da Igreja Cristã até os seus dias” (ANDRADE, 2007, p. 382), o qual disserta sobre o conhecimento dos hebreus referente aos ofícios de Cristo desta forma:

Deve-se saber que, entre os hebreus, o nome de Cristo[6] não era ornamento apenas dos que estavam investidos do sumo sacerdócio e eram ungidos simbolicamente com óleo preparado, mas também dos reis, que eram ungidos pelos profetas por inspiração divina e faziam deles imagem de Cristo, pois efetivamente estes reis já levavam em si mesmos a imagem do poder real e soberano do único e verdadeiro Cristo, Verbo divino, que reina sobre todas as coisas. Além disso, a tradição nos faz saber igualmente que também alguns profetas foram convertidos em Cristo, figuradamente, por meio da unção com óleo, de forma que todos estes fazem referência ao verdadeiro Cristo, o Verbo divino e celestial, único sumo Sacerdote do universo, único rei de toda a criação e, entre os profetas, único sumo Profeta do Pai. Prova disto é que nenhum dos que antigamente foram ungidos simbolicamente: nem sacerdotes, nem reis, nem profetas, possuíam tão alto poder de virtude divina como está demonstrado que possuía Jesus, nosso Salvador e Senhor, o único e verdadeiro Cristo. (EUSÉBIO DE CESARÉIA, 2005, p. 23, grifo meu).


Essa pode ser uma das mais importantes declarações históricas a esse respeito. Retornando, porém, ao período da Reforma, diz-se que não era unânime a concepção dos três ofícios na pessoa de Jesus. Berkhof ressalta que nem todos os teólogos Luteranos[7] declaravam a existência dos três ofícios, mas distinguiam somente dois, fazendo uma junção do ofício profético ao sacerdotal. Contudo, a tríplice distinção consolidou-se como aceita no âmbito comum da teologia, mesmo não havendo concretização quanto à importância desses ofícios e quanto à relação mútua entre eles (2004, p. 327). Esse pensamento acerca do reconhecimento de apenas dois dos ofícios perdurou com os Socinianos[8].

Os Socinianos, na verdade, reconheciam só dois ofícios: Cristo agiu como profeta na terra, e age como rei no céu. Apesar de falarem também de Cristo como sacerdote, incluíam subordinadamente a Sua obra sacerdotal em Sua obra real e, portanto, não reconheciam o Seu saderdócio terreno. (IBIDEM).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A CONSOLIDAÇÃO DA DOUTRINA DOS OFÍCIOS EM AMBOS OS TESTAMENTOS - Por André Rodrigues



Como foi possível observar, os ofícios estabelecidos por Deus, no pacto passado, com extensão tipológica para o pacto futuro, foram desenvolvidos para a manutenção da ordem, tanto para a nação de Israel como para a Igreja[1], no plano secundário. Esses ofícios, no Antigo Testamento, eram distintos[2], e apenas em raros casos há ocorrência da “união[3] deles na mesma pessoa sob a teocracia, como é o caso de Moisés, que foi, ao mesmo tempo, sacerdote e profeta, e Davi, que foi profeta e rei”, (HODGE, 2001, p. 825). Quanto a sua consolidação na pessoa de Cristo, o autor ainda declara:


No Velho Testamento, os vários ofícios eram distintos. [...] O Messias, durante a teocracia e no uso de linguagem tal como então se entendia, foi predito como profeta, sacerdote e rei. Moisés falando de Cristo, disse: “O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim”. Foi sobejamente ensinado que um verdadeiro libertador iria exercer todos os deveres de um profeta como revelador da vontade de Deus. Iria ser um grande mestre de justiça; luz para alumiar os gentios, bem como glória de seu povo Israel. E não menos clara e amiúde se declarava que ele seria sacerdote. “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque”; e deveria ser um sacerdote em seu trono (Sl 110.4; Zc 6.13). Deveria levar os pecados do povo e fazer intercessão pelos transgressores. Seu ofício régio é apresentado de maneira tão proeminente nas profecias messiânicas que os judeus o esperavam só na qualidade de rei. Ele reinaria sobre todas as nações. Seu reino não teria fim. Seria Senhor dos senhores e Rei dos reis (IBIDEM).




É consideravelmente possível afirmarmos uma estreita conexão entre o Messias, aquele que é o Ungido, e o fato de que todos os profetas (1Rs 19.16, Is 61.11), sacerdotes (Êx 30.30; 40.13) e reis (1Sm 10.1; 15.1; 1Rs 19.15,16) somente iniciavam seu ministério após serem ungidos (RYRIE, 2004, p. 291). Dessa forma, clareia-se a idéia de que, no Antigo Testamento, esses ofícios eram literalmente aplicados e, em escala superior, refletiam, em tipo, o que seria perfeitamente desempenhado por Jesus.
No Novo Testamento, essa consolidação deu-se, é claro, em Jesus. Ele é o Cristo, o Ungido. É fácil entendermos, pela compreensão do significado das palavras Mesiha (aramaico), Masiah (hebraico), Christós (grego) e Chistus (Latim, derivado do grego)[4] (COENEN; BROWN, 2000, p. 1079), que Ele recebeu uma unção diferente, a qual, por sua vez, agrega Nele o tríplice ofício: como Profeta, revelar-nos Deus e nos transmitir Sua palavra; como Sacerdote, oferecer-se a Deus como sacrifício em nosso favor; e como Rei, governar tanto a Igreja como o próprio universo (GRUDEM, 1999, p. 523, grifo nosso). Ratificando essa citação, outro autor destaca:


No Novo Testamento, o Redentor, ao assumir o ofício de Messias prometido, apresentou-se ao povo como seu profeta, sacerdote e rei; e os que os receberam, receberam-no em todos esses ofícios. Ele aplicou a si mesmo todas as profecias referentes ao Messias. Referiu-se a Moisés, predizendo o Messias como profeta; a Davi, estabelecendo-o como sacerdote; e às profecias de Daniel, concernentes ao Reino que ele veio estabelecer. Os apóstolos o receberam como o mestre enviado por Deus para revelar o plano de salvação e para desenvolver o destino futuro da Igreja. No primeiro capítulo da Epístola aos Hebreus, lemos: “Havendo Deus outrora falado muitas vezes, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo”. Nessa Epístola, o sacerdócio de Cristo é apresentado de maneira elaborada. [...] De igual modo, o Novo Testamento está cheio de instrução concernente às bases, natureza, extensão, e duração de seu reino. Ele é constantemente designado como senhor, como nosso dono e soberano absoluto. Nada, pois, pode ser mais claro do que o fato de que os profetas do Velho Testamento predisseram que o Messias seria profeta, sacerdote e rei, de sorte que o Novo Testamento descreve o Senhor Jesus mantendo todos esses ofícios (HODGE, 2001, p. 826).  


Portanto, é provada a consolidação desses ofícios na pessoa de Jesus. No Antigo Testamento, através dos tipos referentes a Ele; no Novo, através de Seu ministério e da aplicação do adjetivo Cristo a Sua pessoa. Como foi observado em outro lugar, Ele é o Ungido por excelência, nosso Profeta, Sacerdote e Rei.


Artigo extraído de: RODRIGUES, André. O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei. 2011, Editora Nossa Livraria - PE



[1] Neste sentido, a concentração desses ofícios distintos em Jesus.   

[2] Hodge (2001, p. 825) explica: “O profeta, como tal, não era sacerdote; e o rei não era nem sacerdote nem rei”.

[3] No tocante a união destes ofícios numa só pessoa, Soares (2008, p. 172, 173) afirma que a família dos Macabeus e os papas da Idade Média atreveram-se a acumular os ofícios de rei e sacerdote. Aristóbulo I, filho de Hircano, descendente de Matatias, sacerdote da linhagem de Jeoiaribe (I Cr 24.7), foi o primeiro a usar o título “Rei dos Judeus”, segundo Josefo. Porém, seu reinado não durou muito, pois foi substituído por seu irmão Alexandre Janeu. Depois deles, alguns papas na Idade Média esforçaram-se para ter o domínio do poder espiritual e temporário, entre eles Gregório VII (1073-1085) e Inocêncio III (1198-1216). Todos reivindicaram indevidamente essa posição, que é exclusiva de Jesus (Ap. 19.11-13).
[4] Todas essas palavras significam, respectivamente, Messias, Cristo e Ungido, e definem alguém como Ungido por Excelência, Jesus.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

JESUS, O ETERNO DESCENDENTE DE DAVI - Por André Rodrigues




Depois de tecermos comentários sobre os ofícios de Jesus como Profeta e Perfeito Sumo Sacerdote, falaremos, agora, sobre Seu ofício de Rei, o terceiro do tríplice ofício. Partiremos do pressuposto de sua atuação como Rei nos Evangelhos sinópticos, na implantação deste reino no início do Seu ministério, como também dos aspectos característicos dessa atuação durante Seu estado de humilhação, após a ascensão e, por último, no futuro reinado do Milênio[1]
Como foi possível observar, havia diversas promessas[2] que diziam respeito a um Rei, descendente da casa de Davi, que reinaria eternamente. Severa (1999, p. 241) cita que “os profetas do Antigo Testamento falaram de um rei que viria da casa de Davi, para governar Israel e as nações, com justiça, paz e prosperidade (Is 11.1-9)”. Este Rei é Jesus[3]. Uma dessas muitas promessas é relatada pelo profeta Isaías:

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; para que aumente o seu governo, e venha paz sem fim, sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto[4] (9.6,7, ARA, grifos meu).

sábado, 14 de dezembro de 2013

DAVI, O MAIOR REI DA HISTÓRIA DE ISRAEL - Por André Rodrigues



Depois da inevitável queda de Saul, Davi é escolhido por Deus para assumir o reinado na nação judaica. Inicialmente, sua escolha e também sua unção ocorrera de modo oculto[1], para não haver represálias por parte de Saul. “A unção não podia ter sido realizada abertamente, pois nesse caso Saul teria matado Davi” (HALLEY, 2001, p. 181). Logo após Samuel ungir Davi, conforme o mandado do Senhor, as Escrituras retratam que “desde aquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apoderou de Davi” (I Sm 16.13). Mulder (2009, vol. 2, p. 208) ressalta que isso foi possível, unicamente, com a finalidade de “dotá-lo com sabedoria e poder”, e para que servisse de “orientação para o cumprimento dos propósitos de Deus para a sua vida”. Num pequeno trecho do livro de Atos, Lucas detalha as palavras de Paulo no discurso aos judeus, na sinagoga de Antioquia da Pisídia[2], dizendo:

O Deus deste povo de Israel escolheu a nossos pais e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egito; e com braço poderoso o tirou dela; e suportou os seus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos. E, destruindo a sete nações na terra de Canaã, deu-lhes por sorte a terra deles. E, depois disto, por quase quatrocentos anos, lhes deu juízes, até ao profeta Samuel. E, depois, pediram um rei, e Deus lhes deu, por quarenta anos, a Saul, filho de Quis, varão da tribo de Benjamim. E, quando este foi retirado, lhes levantou como rei a Davi, ao qual também deu testemunho e disse: Achei a Davi, filho de Jessé[3], varão conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade (At 13.17-22, ARC, grifo meu).


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Jesus Deseja Te Salvar!

Jesus Deseja Te Salvar!
"Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chega a Deus". (Hb 7.24a).

Usuários On-Line