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André Rodrigues de Almeida (mais conhecido com André Rodrigues), nascido em 12/10/1982, na Cidade de Jaboatão dos Guararapes, no Estado de Pernambuco. É Teólogo formado pela - Escola de Teologia das Assembléias de Deus no Brasil - ESTEADEB. Foi aluno laureado no ano de 2010, e publicou o Trabalho de Conclusão de Curso pela Editora Nossa Livraria (Editora e Comércio de Livros Jurídicos Ltda), no Estado de Pernambuco no início do ano de 2011 com o Tema: O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei.

É escritor, articulista e criador de conteúdos em (Teologia em Alta, Benfica RelógiosSkinni Jeans e Leitura Saudável), além do grupo de compras e vendas (Rapidão Negociação) no Facebook. Escreve publicações voltadas para a teologia em: Teologia em Alta e no Leitura Saudável, dispõe de assuntos diversos, frases, pensamentos e comenta política cotidiana.


domingo, 23 de julho de 2017

A MANIFESTAÇÃO DOS OFÍCIOS EM JESUS - (SACERDOTE) - Por André Rodrigues


Sacerdote no contexto veterotestamentário


Todo estudante das Escrituras percebe que o Antigo Testamento destaca-se,
mesmo como uma questão cultural[1], na prática de ofertas e sacrifícios[2], que são uma constante. Nas questões relativas ao pecado era, dentre outras, função do sacerdote[3] interceder a Deus pelo povo e consequentemente também por si mesmo. Vimos que a relação de Deus com o homem era exercida (em maior parte) através dos profetas. Porém, a representação do povo para com Deus era possível apenas mediante a atuação dos sacerdotes e do sumo sacerdote.

Enquanto os profetas são predominantemente os porta-vozes de Deus e aplicam a palavra de Deus na situação dos seus contemporâneos, os sacerdotes são aqueles cujo a função principal é a de interceder por outros seres humanos na presença de Deus. De forma simples, se o profeta é o representante de Deus diante da humanidade, o sacerdote é o representante da humanidade diante de Deus (LETHAM, 2007, p. 103). 

Os sacerdotes foram constituídos por Deus. Andrade nos mostra que “no Antigo Testamento, era o ministro divinamente designado, cuja principal função era representar o homem diante de Deus” (2007, p. 324). Em harmonia com esse autor, mas explorando as demais funções exclusivas dos sacerdotes, outro escritor destaca:

[...] um sacerdote é: (1.) Um homem devidamente designado para agir em prol de outros homens nas coisas concernentes a Deus. A ideia que jaz no fundamento do ofício é que os homens, sendo pecadores, não têm livre acesso a Deus, portanto, deve-se designar alguém que tenha em si mesmo esse direito, ou que se haja concedido, para que se aproxime de Deus em favor deles. Consequentemente, um sacerdote é, pela natureza de seu ofício, um mediador. (2.) Um sacerdote é designado para oferecer dons e sacrifícios pelos pecadores. Sua função é reconciliar os homens com Deus; fazer expiação pelos pecados deles; e apresentar suas pessoas, confissões e oferendas a Deus. (3.) Ele intercede pelo povo. Isso não meramente como um homem pode orar por outro, mas recomendando a eficácia de seu sacrifício e autoridade de seu ofício com base sobre as quais suas orações devem ser respondidas (HODGE, 2001, p. 830).

Fica claramente exposto nas citações acima que os sacerdotes, mesmo não sendo perfeitos, obtinham em si responsabilidades que parecem ser inigualáveis. Nessa ótica, são diversos os sinônimos para esses homens privilegiados[4]. Dentre eles, podemos destacar o de ser mediador entre Deus e os homens. É tão sublime que soa como uma ideia paradoxal. Corroborando esse pensamento, outro autor argumenta:

A passagem clássica na qual são dadas as verdadeiras características do sacerdote e na qual sua obra é em parte designada, é Hb 5.1. Estão indicados ali os seguintes elementos: (a) o sacerdote é tomado dentre os homems para ser seu representante; (b) é constituído por Deus [...]; (c) age no interesse dos homens nas coisas pertencentes a Deus, isto é, nas coisas religiosas; (d) sua obra especial consiste em oferecer dádivas e sacrifícios pelos homens. Mas a obra dos sacerdotes incluía ainda mais que isso. Ele também fazia intercessão pelo povo (Hb 7.25) e os abençoava em nome de Deus, Lv 9.22 (BERKHOF, 2004, p. 331, grifo do autor). 

Uma vez sabedores das características principais e secundárias dos sacerdotes como também de sua importância no bem viver social-espiritual humano, com relação a Deus, resta-nos saber como se procedeu, de fato, a instituição sacerdotal estabelecida por Deus.  

 Como procedeu a instituição dos sacerdotes

De uma coisa sabemos: “no Antigo Testamento, os sacerdotes eram designados
por Deus para oferecer sacrifícios” (GRUDEM, 1995, p. 525). Mas como explicar o estabelecimento exato dessa classe, que representaria perpetuamente o povo diante de Deus? Halley (2001, p. 127) destaca que “o sacerdócio levítico foi ordenado por Deus para servir de mediador entre Deus e a nação hebraica, mediante a oferta de animais sacrificiais”. Os levitas foram separados por Deus para ficarem à frente dos serviços vinculados ao Tabernáculo e, consequentemente, aos serviços no Templo, posteriormente. De maneira detalhada, esse comentarista acentua:

Os levitas são todos os pertencentes à tribo de Levi, uma das doze tribos de Israel. [...] Deus nomeou os levitas para tomar o lugar dos primogênitos no serviço a Deus[5]. Uma família ou clã dos levitas, a família de Arão, foi separada para o sacerdócio. O restante dos levitas dariam assistência aos sacerdotes. Entre seus deveres estavam o cuidado do Tabernáculo e posteriormente o cuidado do Templo, bem como as funções de mestres, escribas, músicos, oficiais e juízes. [...] A tribo de Levi foi a única que não obteve terras depois de os israelitas terem conquistado Canaã. Em contrapartida, receberam 48 cidades, espalhadas por todas as partes do país (Nm 35.7; Js 21.19). Como não receberam terras, não conseguiam sustentar a si mesmos – seu sustento provinha dos dízimos do restante de Israel (HALLEY, 2001, p. 125).

Dentro dessa perspectiva, agora numa visão centrada exatamente na constituição 
da hereditariedade de Arão para o sacerdócio perpétuo, Gilberto ressalta:

No tocante ao sacerdócio araônico, está escrito: “...ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão (Hb 5.4). A escolha dele para exercer o sacerdócio não se deu devido ao seu parentesco com Moisés. Foi um ato soberano de Deus (GILBERTO, Et All, 2009, p. 144).

Deus, através de Arão, irmão de Moisés, numa escolha importante, constituiu a primeira família da linhagem sacerdotal para a nação. Para uma melhor compreensão dessa escolha de Deus por Arão, devemos salientar que esta escolha não reflete apenas a formação de sacerdotes, mas, através de Arão, nasce também a linhagem de sumo sacerdotes[6], da qual ele foi pioneiro. Halley, de modo acentuado, ao explicar esta consagração de Arão, diz:

Antes da época de Moisés, os sacrifícios eram apresentados pelos cabeças da famílias[7]. Mas, uma vez organizada a nação, consagra-se um lugar para os sacrifícios, preceitua-se um ritual e cria-se um sacerdócio hereditário em uma cerimônia solene. Foi determinado que Arão fosse o sumo sacerdote, e seu filho primogênito, seu sucessor. O sacerdócio era sustentado pelos dízimos (a décima parte da renda familiar – na forma de dinheiro, gado ou produtos agrícolas) e por parte de alguns sacrifícios. Eles receberam treze cidades (Js 21.13-19) (2001, p. 126, 127).

É importante o testemunho de Flávio Josefo, considerado um dos maiores historiadores judeus de todos os tempos em literatura não-canônica. Sendo também de linhagem sacerdotal, viveu entre 37 e 103 d.C., era possuidor de uma capacidade particular  para expressar as raízes elementares deste tão precioso ofício, do qual também descendia. Diz ele:

[...] Tudo estava preparado, e não restava mais consagrar o Tabernáculo. Deus então apareceu a Moisés e ordenou-lhe que fizesse a Arão, seu irmão, sumo sacerdote, porque era mais digno que qualquer outro para esse cargo. Moisés reuniu o povo, falou-lhes das virtudes de Arão e do interesse deste pelo bem público, que tantas vezes o fizera arriscar a vida. E todos não somente concordam com a escolha, mas o aprovam com alegria. Então Moisés assim lhes falou: “Todas as obras que Deus havia ordenado estão terminadas, segundo a sua vontade e segundo as nossas posses. Como vós sabeis, Ele quer honrar este Tabernáculo com a sua presença, mas é necessário, antes de tudo o mais, criar o sumo sacerdote, aquele que é o mais competente para bem desempenhar este cargo, a fim de que cuide de tudo o que se refere ao culto divino e ofereça a Ele os vossos votos e as vossas orações. [...] Deus mesmo, que destinou Arão há muito tempo para esse sagrado ministério, conhecendo-o como o mais justo dentre vós, o mais digno de ser honrado, deu-lhe o seu voto e julgou em seu favor. Assim, Arão oferecer-lhe-á de ora em diante, por vós, orações e votos, e Ele os escutará tanto mais favoravelmente quanto, além do amor que vos tem, eles lhe serão apresentados por aquele que Ele escolheu para ser o vosso intercessor junto dele (Antiguidades Judaicas, Livro 3º, Cap. 9, p. 176, 177). 

Percebe-se, de acordo com as citações acima, que Arão era o sumo sacerdote estabelecido por Deus. Letham (2007, p. 104) descreve que “em Israel, o ofício estava reservado a Arão e os seus descendentes diretos”. Contudo, aos levitas[8], como vimos em momento anterior foram atribuídas as obrigações do exercício sacerdotal. “Isso não significa, porém, que todo o levita fosse sacerdote. No entanto, todo sacerdote tinha de ser necessariamente levita” (ANDRADE, 2007, p. 253). Na ordem das responsabilidades desses levitas, não mais no tempo do Tabernáculo, mas já com a fixação do Templo em Jerusalém, houve a necessidade de reestruturação das atividades exercidas por eles. Uns dedicaram-se à fiscalização do serviço do Templo; outros agiam como porteiros; e ainda alguns se portavam como músicos. Comenta-se que provavelmente havia um coral com quatro mil vozes de levitas. Em uma escala de serviço específico, destacam-se alguns levitas como oficiais e juízes de Israel, como também aqueles que estariam à disposição dos negócios do rei. Concluímos, portanto, que a separação dessa tribo efetuada por Deus transcenderia os serviços ligados a Ele e entraria numa esfera de atuação de grande valor também no “governo civil” (HALLEY, 2001, p. 222). 

Além dessa ordem estabelecida por Deus para o bem-estar do povo havia, no cenário veterotestamentário, outra ordem misteriosa, da qual trataremos a seguir.


A enigmática ordem de Melquisedeque


         Fica claro que “no Antigo Testamento não havia apenas uma única ordem de sacerdotes, mas duas” (LETHAM, 2007, p. 107): a procedente de Arão e outra, um tanto quanto misteriosa, tendo Melquisedeque[9] como principal personagem[10]. As questões relacionadas a esse “Rei-Sacerdote” dão espaço principalmente às especulações tradicionais da história do povo judeu. Por exemplo: “Uma tradição hebraica diz que se trata de Sem, filho de Noé[11] e sobrevivente do dilúvio – que ainda vivia como o homem mais velho da época no mundo. “Na era patriarcal, ele seria sacerdote de toda a espécie humana” (HALLEY, 2001, p. 92). Somando-se a essa citação, Soares diz que “Muitos rabinos da antiguidade afirmam ser ele Sem, o mais velho sobrevivente do dilúvio, pois se recusam a admitir a idéia de Abraão ter dado os dízimos a um estrangeiro” (2008, p. 116). Toda essa problemática deve-se ao fato de que a menção escriturística acerca de Melquisedeque é restrita, ocorrendo apenas em Gn 14.18ss e Sl 110.4. Portanto, ninguém conhece de modo preciso toda a história desse homem.
O que se pode afirmar, com respaldo bíblico resumido, é que Melquisedeque de fato era “o honorável sacerdote-rei de Salém (Jerusalém) [...] que pronunciou uma bênção a Abrão” (LIVINGSTON, Et All, vol. 1, 2009, p. 61, grifo do autor). Um breve relato é ressaltado acerca dele pelo historiador:

O rei de Sodoma veio até ele no lugar a que chamam Campo Real, onde o rei de Salém, que agora é Jerusalém, o recebeu com grandes demonstrações de estima e de amizade. Esse príncipe chamava-se Melquisedeque, isto é, “rei justo”. E ele era verdadeiramente justo, pois a sua virtude era tal que, por consentimento unânime, havia sido feito sacerdote do Deus Todo-poderoso. Ele não se contentou em receber apenas a Abraão, mas também a todos os seus. Deu-lhes, no meio dos banquetes que realizou, os louvores devidos à sua coragem e virtude e prestou a Deus públicas ações de graças por tão gloriosa vitória. Abraão, por sua vez, ofereceu a Melquisedeque a décima parte dos despojos que tomara dos inimigos, e este aceitou (JOSEFO, Antiguidades Judaicas, Livro 1º, Cap. 10, p. 92, 93).

Dá para se perceber quão complexa é a figura de Melquisedeque. Entretanto, para
facilitar a compreensão acerca deste misterioso personagem, outro ponto a considerar é que Melquisedeque é tipo de Cristo, ou seja, exercia um sacerdócio semelhante ao que seria exercido por Jesus no Novo Concerto sacerdotal, ou seja, uma nova dispensação. “Jesus não poderia ser um sacerdote em Israel. Ele não era um membro da tribo de Levi, e menos ainda da família de Arão. Portanto, ele simplesmente não era qualificado” (LETHAM, 2007, p.105). Contudo: 

Os profetas prediziam que Jesus viria como sacerdote eterno (cf. Sl 110.4). Quando Ele veio, foi identificado como o sumo sacerdote prometido (cf. Hb 2.17; 3.1; 4.14, 15; 5.6,10; 8.1; 10.21). [...] Jesus, como sacerdote conforme a ordem de Melquisedeque, evidencia que o seu sacerdócio não era da Lei, mas sim de uma nova dispensação. Conforme aquela dispensação, Jesus jamais poderia ser sacerdote, porque estes eram todos da tribo de Levi (cf. Nm 18.27; 1Cr 23.13), enquanto Jesus era da tribo de Judá (cf. Hb 7.13,14).

Assim, ele foi sacerdote chamado por Deus. “Jurou o Senhor: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7.21). Jesus, sacerdote conforme a ordem de Melquisedeque, chama a atenção para o fato de que Ele, assim como Melquisedeque, era tanto rei como sacerdote. Assim como Melquisedeque foi chamado “rei de justiça” (Hb 7.2), Jesus também o foi (cf. At 22.14; Jr 23.6; 1Jo 2.1). Assim como Melquisedeque foi chamado “rei de paz” (cf. hb 7.2), Jesus também o foi (cf Is 9.6). Nenhum dos sacerdotes levíticos foi sacerdote e rei. Mas Jesus era tanto sacerdote como Rei (cf. Zc 6.13) (BERGSTÉN, 1999, p. 61, 62).    

Talvez isso explique o fato de que informações precisas acerca de Melquisedeque tenham sido encobertas, por ser ele exatamente um sacerdote tipo de Jesus, ou seja, um mistério que estaria por revelar-se. Letham afirma que sua pessoa “estimulou desde a antiguidade a imaginação dos judeus” (2008, p. 114). Como tipo do que deveria vir, pensa-se: “Assim como o misterioso rei da época cananeia era também sacerdote, Aquele que se esperava devia também assumir uma função sacerdotal que se elevasse muito acima do sacerdócio ordinário, que não perecesse, mas que fosse eterno” (IBIDEM). 

Nessa nova dispensação sacerdotal, é possível sim observar sua superioridade em relação à outra. Acerca da antecipação dessa nova ordem sacerdotal à ordem arônica, o autor a seguir faz uma importante declaração: 

O escritor aos Hebreus chama a atenção, ainda, para alguns detalhes do curto relato do encontro de Abraão com Melquisedeque, como a menção dos dízimos e o fato de Abraão ser abençoado por ele (Gn 14.19, 20; Hb 7.6), revestindo de significado espiritual extraordinário. No sistema arônico, o dízimo era estabelecido pela lei e era tomado do povo (Nm 18.21; Hb 7.5), mas Abraão o fez espontaneamente. Nesse caso até Levi, bisneto de Abraão, pagou dízimo “por que ainda ele estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hb 7.9). Assim, o patriarca, fundador da nação de Israel, foi abençoado, isso revela sua estatura espiritual visto que “o menor é abençoado pelo maior” (Hb 7.7), mostrando a superioridade da ordem de Melquisedeque (SOARES, 2008, p. 116, 117, grifo meu).  

É notória uma elevada perfeição na ordem de Melquisedeque, principalmente na pessoa de Jesus como seu antítipo. A explicação dessa superioridade encontra-se na explicação exegética do Salmo 110.4, que nos revela detalhes dessa ordem. O comentarista abaixo, fazendo um paralelo com a carta aos Hebreus, diz:

As funções de rei e sacerdote estão combinadas em Senhor. Este versículo é citado seis vezes em Hebreus (5.6, 10; 6.20; 7.11, 15, 21), onde o autor ressalta que o sacerdócio de Cristo é de uma ordem diferente e superior à de Arão, a saber, um sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque. Como tal, ele não depende de linhagem humana (Hb 7.3). Ele era anterior e melhor do que o sacerdócio dos filhos de Levi (7.4-10). Esse sacerdócio indica uma mudança na lei (7.11-12). Ele explica como Jesus, sendo da tribo de Judá e não da de Levi, podia ser sacerdote (7.13-14). Esse sacerdócio era assegurado e fundamentado pelo juramento do Senhor (7. 20-22). E, visto que é eterno, não sujeito a uma sucessão humana de sumos sacerdotes, ele é a base da nossa salvação completa e eterna (7.23-28). Mesmo o nome Melquisedeque é significativo, um aspecto que tornava a terminologia do salmista especialmente importante. Melquisedeque significa “rei da justiça”. Ele foi identificado em Gênesis 14.18-20 como “rei de Salém”, que significa “rei de paz”. Ele era reconhecido como “o sacerdote do Deus Altíssimo” setecentos anos antes de ser instituído o sacerdócio levítico. No sacerdote régio de justiça e paz temos um tipo de Cristo, que unifica nele mesmo as funções de profeta, sacerdote e rei do AT (CHAPMAN, Et All, vol. 3, 2009, p. 283, grifos do autor).

Concluímos que, mediante o sacerdócio deste enigmático Melquisedeque, abre-se um precedente tipológico que serviria como exemplo para o ministério sacerdotal de Cristo, o qual transcenderia qualquer ordem anterior ou posterior (caso houvesse). Assim, nessa ordem segundo Melquisedeque, Jesus se destaca como sendo “um grande Sumo Sacerdote, que está de pé e pronto para vir em auxílio dos que passam por provações (Hb 2.18) e ansioso para dar graça para ajudar nos momentos de necessidade (Hb 4.16) (RYRIE, 2004, p. 296). 

Jesus, o Perfeito Sumo Sacerdote

O exercício sacerdotal de Jesus é superior a qualquer outro conhecido. Na ordem
sacerdotal proveniente de Arão, a atuação dos sacerdotes[12] e sumo sacerdotes resumia-se ao Tabernáculo e, posteriormente, ao Templo, cada um com sua função específica estabelecida pela Lei. Jesus é mostrado na epístola aos Hebreus como o maior de todos os Sumos Sacerdotes. Esse ofício, largamente descrito no Antigo Testamento, tinha uma importância singular no que diz respeito às relações do povo para com Deus. Letham nos mostra quatro principais razões para entendermos essa tão preciosa relevância:

Primeiro ele era o representante de Israel na presença de Deus. O peitoral inconfundível que ele vestia continha doze pedras preciosas, com os nomes das doze tribos de Israel gravados nelas (Êx 28.17-21). Cada vez que ele entrava na presença de Yahweh[13], ele levava essas pedras preciosas com ele (Êx 28.29), indicando que ele estava lá no lugar do povo com o qual Yahweh havia entrado em um pacto. Em segundo lugar, ele tinha funções proféticas. O urim e o tumim[14] também deviam se encontrar no peitoral (Êx 28.30).
Com a ajuda deles, o sacerdote poderia declarar a vontade do Senhor em determinado assunto. Uma vez que os profetas surgiram esses objetos caíram em desuso. [...] Em terceiro lugar, o sumo sacerdote compartilhava com todos os sacerdotes o pronunciamento da bênção sobre Israel, declarando a bênção pactual de Yahweh (Nm 6.22-27). Em quarto lugar, enquanto o sacerdócio em geral presidia sobre a oferta dos sacrifícios diários, apenas o sumo sacerdote estaria envolvido no ritual do Dia da Expiação (Lv 16)[15]. Em essência, a sua função era expiatória[16] e propiciatória[17] (2007, p. 104, 105).

O sumo sacerdote era o oficial representante do povo perante Deus. Jesus se fez carne, e, dentre os seus muitos desígnios, também estava o de ser eterno representante daqueles que o seguissem. Nesse ofício, Cristo segue o padrão do sacerdócio araônico. Entretanto, a alusão a Melquisedeque como um tipo seu ilustra bem sua autoridade real, sua eternidade, como também a natureza perpétua de sua obra (GILBERTO, Et All, 2009, p. 145). Grudem (1999, p. 525) afirma que “Jesus preencheu todas as expectativas que prefigurou, não apenas nos sacrifícios do Antigo Testamento, mas também na vida e ação dos sacerdotes que os ofereciam: ele era tanto o sacrifício quanto o sacerdote que oferecia o sacrifício”. Disse isto, o autor, ao tratar da morte de Jesus[18] na cruz do Calvário, que se tornou um sacrifício perfeito. Corroborando esse pensamento, outro escritor argumenta:

No Antigo Testamento, os sacerdotes ofereciam cordeiros e bodes pelos pecados do povo. (Hb 10.4) Cristo, porém, o grande Sumo Sacerdote (Hb 7.26, 27) sacrificou-se a si mesmo, sendo sacerdote e sacrifício numa só pessoa (Hb 9.12-14; Ef 5.4). [...] Cristo cumpriu seu ofício sacerdotal, prestando perfeita obediência a seu Pai, o qual, unicamente levado por amor, entregou seu filho unigênito para redenção do mundo (Jo 3.16; 1.29). A Escritura descreve convenientemente a obra redentora de Cristo como obediência a Deus. [...] A obediência vicária de Cristo compreende em si: a) obediência ativa, pela qual nosso divino substituto se sujeitou à obrigação da Lei de Deus, cumprindo-a por nós mediante a sua vida perfeita e santa (Gl 4.4,5; Rm 5.19; Mt 3.15) b) sua obediência passiva, pela qual se submeteu à maldição da Lei62, padeceu e morreu pelos pecados do mundo (Hb 9.12; Ef 5.2; Is 53. 4-6). Dessa maneira, por sua vida santa e morte inocente, Cristo nos adquiriu aquele mérito divino que é a nossa justiça perante Deus para a salvação (Rm 3.22-25; 2Co 5.19-21) (MUELLER, 2004, p. 299, grifo meu).

Portanto, depois de sua morte sacrificial, Jesus torna-se o nosso Sumo Sacerdote, ou seja, aquele a quem podemos recorrer, porque Ele próprio conhece todas as dificuldades humanas. Disse o anônimo escritor da carta aos Hebreus: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15 ARC). As qualidades de Cristo como sumo sacerdote são expostas, de forma enfática, na epístola aos Hebreus (LETHAM, 2007, p. 109). 

O autor também ressalta:

Ele mesmo é plenamente humano, tendo participado da nossa carne e sangue. Ele sofreu, suportou tentações e experimentou a morte (2.11-18). Logo, ele permanece em solidariedade com aqueles que apresenta. Em 5.110, isso é colocado de forma mais ampla. Ele foi um conosco na fraqueza humana. Suas orações foram oferecidas a Deus com forte clamor e lágrimas. Ele aprendeu a obediência por meio do sofrimento (5.7-8). Portanto, ele é capaz de simpatizar conosco em nossas dificuldades (4.14, 15). Ele está equipado para nos representar diante de Deus, pois ele conhece os problemas que enfrentamos (5.1, 2). Além do mais, assim como Arão, ele foi comissionado por Deus. Ele não buscou o sumo sacerdócio perfeitamente, pois ele enfrentou a tentação com sucesso, e saiu imaculado da provação (4.14-16; 7.26, 27; 10.5-10). Seu aprendizado da obediência por meio do sofrimento (5.8) não foi um progresso de desobediência à obediência, mas, antes, foi todo um desenvolvimento ao longo de toda a sua vida de um a que a morte de Cristo foi: Pré-determinada; voluntária; vicária; sacrificial; expiatória; propiciatória; redentora e substitutiva (2006, p. 145-152). Outros ainda defendem de modo semelhante.  

Essas qualidades e principalmente as que se relacionam com a intercessão de Jesus por nós são criticadas por alguns estudiosos. Esses são os que afirmam serem estes ofícios profético, sacerdotal e régio, no sentido que é aplicado a Cristo, “apenas descrições figuradas dos diferentes aspectos da obra realizada por Cristo” (BERKHOF, 2001, p. 335), negando seu verdadeiro significado prático. Como nesta discussão está em pauta o ofício sacerdotal, dizem que Cristo, como sacerdote eterno, ou seja, aquele que intercede constantemente pelos seus, é apenas simbólico, não havendo uma concretização de sua intercessão literal local, mas essa intercessão dá-se somente com sua presença diante do Pai. 

Alguns têm argumentado que essa obra de intercessão como sumo sacerdote é apenas a permanência na presença do Pai como lembrete contínuo de que ele mesmo pagou a pena por todos os nossos pecados. De acordo com esse ponto de vista, Jesus não faz de fato orações específicas a Deus Pai por causa das necessidades individuais que enfrentamos na vida, mas “intercede” apenas no sentido de permanecer na presença de Deus como nosso sumo sacerdote que nos representa (GRUDEM, 1999, p. 526).

Berkhof, entretanto, afirma que “é um triste engano supor que Ele só é sacerdote num sentido figurado” (2001, p. 335). “Apesar de Cristo haver oferecido um sacrifício perfeito ‘de uma vez por todas’, sua obra sacerdotal ainda continua. Ele vive para aplicar os méritos e o poder de sua obra expiatória perante Deus, a favor dos pecadores”. Esse mesmo autor conclui: 

O mesmo que morreu pelos homens agora vive para eles, para salvá-los e  para interceder por eles. E, quando oramos “em nome de Jesus”, estamos pleiteando a obra expiatória de Cristo como a base da nossa aceitação, porque somente por ela temos a certeza de ser aceitos “gratuitamente no amado” (PEARLMAN, 2006, p. 171). 

Dessa forma, Jesus é o Sumo Sacerdote Perfeito, que intercede pelos seus a todo instante. O apóstolo Paulo enfatiza: “Pois é Cristo que morreu ou, antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós” (Rm 8.34, ARC). Somando-se a essa citação, o escritor aos Hebreus afirma que Jesus vive sempre intercedendo por nós: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25, ARA, grifo nosso). O ministério sacerdotal de Jesus é, por conseguinte, iniciado antes de sua morte, entretanto, de maneira indistinta. “O trabalho de intercessão ele realizou, de alguma forma, quando ele esteve na terra (Jo 17)[19]” (SEVERA, 1999, p. 241). Porém, depois da oferta do seu sacrifício vicário propriamente dito, é que Cristo passou a exercer, “especificamente, esse ministério de intercessão (Hb 7.25; 9.24). A base da Sua intercessão é o Seu sacrifício (1Jo 2.1, 2)”[20]

Segue-se daqui que é ele o eterno intercessor, pelo auxílio de quem conseguimos favor. De onde, por outro lado, nasce não somente confiança em orar, mas também tranquilidade às consciências piedosas, enquanto, em segurança, se reclinam na paterna indulgência[21] de Deus e estão, com toda certeza, persuadidas de que lhe agrada tudo quanto é consagrado através do mediador. Embora, na verdade, sob a Lei haja Deus ordenado se lhe oferecessem sacrifícios de animais, diversas e nova foi a disposição em Cristo, assim que o mesmo que era o sacerdote fosse também a vítima, porquanto nem se podia achar outra satisfação idônea pelos pecados, nem alguém digno de tão elevada honra que pudesse oferecer o Unigênito à Deus (CALVINO, 1985, vol. 2, p. 267, 268).

Dentro dessa linha exposta por Calvino, conclui-se que Cristo é o eterno intercessor. Intercedeu, desde a fundação do mundo[22], na disposição para sua vinda a esta terra, exposta pelo Pai na promessa de redenção; intercedeu quando do Seu ministério terreno, o qual foi consumado com Sua morte na cruz; e vive intercedendo por nossas transgressões junto ao Pai. Mediante esta última consideração, percebe-se que este é o importante papel de Jesus como o Perfeito Sumo Sacerdote. Disse o anônimo escritor aos Hebreus:

Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção. Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os santificam, quanto a purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servimos ao Deus vivo! Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém, no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus; nem ainda para se oferecer a si mesmo muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santo dos Santos com sangue alheio. Ora, neste caso, seria necessário que ele tivesse sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo; agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado. E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que aguardam para a salvação (Hb 9. 11-14, 24-28, ARA).  

Artigo extraído de: RODRIGUES, André. O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei. 2011, Editora Nossa Livraria - PE

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[1] Deus colocou o sistema sacrificial no cerne da vida nacional judaica. Quaisquer que fossem suas aplicações e implicações imediatas para os judeus, o sacrifício perpétuo de animais e o arder perpétuo do fogo dos altares por certo existiam, segundo o designo de Deus, para gravar na consciência do povo de Israel a percepção de que eles eram profundamente pecaminosos. Além disso, serviram durante mais de mil anos, como figura que prenunciava o sacrifício de Cristo na cruz, ainda no futuro (HALLEY, 2001, p. 127).

[2] Soares diz que o sacrifício é o tema central do Antigo Testamento. Isso salta à vista de qualquer leitor assíduo da Bíblia. Essa prática, segundo ele, é tão antiga quanto a humanidade (Gn 4.4; 8.20) (2008, p. 113).

[3] A palavra hebraica para sacerdote é kõhen, “autoridade principal ou oficial mor, sacerdote” (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTKE, 1998, p. 704, apud SOARES, 2008, p. 112). Vine diz que esta palavra é achada 741 vezes no Antigo Testamento (2004, p. 271). O termo kõhen era usado para se referir não só ao sacerdócio hebraico, mas aos “sacerdotes” egípcios (Gn 41.50; 46.20; 47.26), aos “sacerdotes” filisteus (1Sm 6.2), aos “sacerdotes” de Dagom (1Sm 5.5), aos “sacerdotes” de Baal (2Rs 10.19), aos “sacerdotes” de Quemós (Jr 48.7), e aos “sacerdote de Baalins e de Aserá (2Cr 34.4,5). O oficio sacerdotal judaico foi estabelecido pelo Senhor nos dias de Moisés. Mas antes da instituição do sumo sacerdócio e do ofício sacerdotal, lemos do sacerdócio de
Melquisedeque (Gn 14.18) e dos “sacerdotes” midianitas (Êx 2.16; 3.1; 18.1). Em Êx 19.24, são mencionados outros “sacerdotes”: pode ser que eram “sacerdotes” midianitas” ou “sacerdotes” de Israel antes do estabelecimento oficial do sacerdócio levítico (VINE, 2004, p. 272). 
[4] Privilegiados no sentido de constituídos por Deus para tal ofício.
[5] Quanto à tomada deste lugar, ou seja, “no serviço a Deus”, no dizer de Halley, como Deus poupou os primogênitos de Israel na última das pragas contra o Egito (Êx 11.4 – 12.13), todos os filhos primogênitos e todos os animais primogênitos pertenciam a Deus. Os animais eram sacrificados, ao passo que os homens eram redimidos. Para redimir o primogênito, a família pagava um preço ao sacerdote, em vez de entregá-lo para o serviço do Templo (2001, p. 125).
[6] [Do hb. Cohen gadol; do lat. Summus pontifex] O principal entre os sacerdotes. No sistema levítico, era o responsável pelo culto, adoração e sacrifício na congregação dos filhos de Israel. Sua maior função era representar os israelitas diante de Deus, e por eles fazer expiação. A intercessão era a base deste ministério exclusivo do Antigo Pacto (ANDRADE, 2007, p. 335).

[7] Pode também ser entendido como “patriarca”, ou seja, o chefe da família.
[8] Nome dado aos descendentes da Tribo de Levi.

[9] Este nome vem de duas palavras hebraicas (melek), “rei” e (tsedeq), “justiça, retidão” (SOARES, 2008, p. 116). Neste caso a palavra significa literalmente Rei de Justiça (BOYER, 2006, p. 429).

[10] Letham (2007, p.107) destaca que o sumo sacerdote Melquisedeque não teve que estabelecer sua legitimidade pelo apelo à antiguidade. Na verdade, todas as referências à antiguidade de Melquisedeque e ao seu período de vida são omitidas em Gênesis, um ponto que é desenvolvido em Hebreus. 

[11] Esta possibilidade disposta na tradição judaica entra em contradição com o testemunho neotestamentário, observado pelo escritor aos Hebreus, quando enfatiza: “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas, sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (Hb 7.3, ARC).
[12] No tocante a atuação dos sacerdotes, confira a seção 2.4.

[13] Transliterando: Javé, Jeová.

[14] Expressão hebraica que significa, provavelmente, luzes e verdades. Embora não seja possível precisar em que consistia este objeto usado pelo sumo sacerdote hebreu, supõe-se ter sido algo através do qual podia ele, desde que em plena comunhão com Deus, buscar a vontade divina acerca de determinados fatos (Êx 28.30; Lv 8.8; Dt 33.8) (ANDRADE, 2007, p. 354). Representavam juízo concernente à vontade de Deus. O sumo sacerdote era o juiz do povo e fazia suas resoluções servindo-se destas pedras. Simbolizavam poder e sabedoria na tomada de decisões (LIVINGSTON, Et All, vol. 1, 2009, p. 215, grifo do autor). 

[15] O dia anual da expiação (ainda hoje celebrado no judaísmo com modificações e conhecido por seu nome hebraico: yôm kippûr) era celebrado no décimo dia do sétimo mês (tisri [...]). Era o dia mais solene do ano. Em cada uma dessas ocasiões, a eliminação do pecado era válida para um só ano (Hb 10.3), mas prenunciava o futuro cancelamento eterno dos pecados (Zc 3.4, 8, 9; 13.1; Hb 10.14). Depois de oferecido o bode sacrificial, o sumo sacerdote impunha as mãos sobre a cabeça do bode emissário e confessava sobre ele os pecados do povo. Em seguida, esse bode era enviado ao deserto levando consigo os pecados do povo. Essa cerimônia foi uma das prefigurações históricas, oferecidas por Deus, da futura expiação do pecado humano por meio da morte de Cristo (HALLEY, 2001, p. 128).  

[16] A palavra “expiação” vem do termo hebraico cofer. Trata-se de um substantivo do verbo caufar, cobrir. O cofer ou a cobertura era o nome da tampa ou cobertura da arca da aliança e constituía o que era chamado propiciatório. A palavra grega traduzida por expiação é katallage. Isso significa reconciliação com o favor ou, mais estritamente, os meios ou condições para que haja reconciliação com o favor; de katallasso, “mudar ou trocar”. O significado estrito do termo é substituição [...] a expiação é a substituição governamental da punição dos pecadores pelos sofrimentos de Cristo. São os sofrimentos de Cristo cobrindo os pecados dos homens (FINNEY, 2009, p. 280, 281).

[17] Propiciação [Do lat. Propitiatio, tornar favorável] Doutrina segundo a qual o sacrifício de Cristo, no Calvário, tornou Deus favorável à humanidade caída e enferma pelo pecado (I Jo 2.2). Esta doutrina está ligada, essencialmente, ao ministério sacerdotal de Cristo (I Jo 4.10) (ANDRADE, 2007, p. 306).

[18] Algumas teorias são apresentadas pela maioria dos teólogos, com a finalidade de explicar a obra da expiação executada por Cristo. Horton apresenta cinco teorias: A da Influência Moral; do Resgate; da Satisfação; Teoria Governamental; e a Teoria da Substituição Penal (Et All, 2010, p. 346-350). Strong diferencia com três e concorda apenas com uma, quando, conseqüentemente, aplica quatro em sua obra: Moral; Comercial; Legal e Sacrificial (2003, p. 380-383). Bancroft faz alusão para alguns pontos de vista que considera como errôneos, acerca da natureza da morte de Cristo, e apresenta negativamente cinco teorias: A teoria de acidente; A de morte de mártir; A teoria da influência moral; A governamental e A teoria do amor de Deus. Como positivas destaca
[19] O capítulo 17 do Evangelho segundo João é comumente conhecido como o capítulo da “Oração sacerdotal de Jesus”.

[20] Ibidem.

[21] De acordo com Andrade, deriva do latim indulgentia, e significa: “clemência, misericórdia, perdão” (2007, p. 228).

[22] A expiação teve sua origem na eternidade. Sua fonte foi Deus. A expiação era um fato implícito no coração de Deus antes de tornar-se um fato explícito na história do homem  –  um fato da eternidade antes de tornar-se um fato do tempo (BANCROFT, 2006, p. 149).  

domingo, 25 de junho de 2017

A MANIFESTAÇÃO DOS OFÍCIOS EM JESUS - (PROFETA) - Por André Rodrigues




Depois de analisar questões voltadas a definições, passaremos a analisar como se
procedeu em Jesus Cristo os ofícios de Profeta, Sacerdote e Rei, traçando um paralelo entre seus usos e aplicações no passado com os mesmos papéis desempenhados pelo Senhor em Seu Ministério. Analisaremos cada seção que revele esses ofícios tanto nos evangelhos como nos outros escritos do Novo Testamento.   

 2.1. O que é um profeta   

Para darmos início a esta discussão, é necessário definirmos, de modo acentuado, os conceitos de cada expressão no original dada ao termo profeta. Berkhof faz uso desta prerrogativa na seção chamada por ele de “A ideia escriturística de profeta”. Fazendo uso dos termos aplicados na Escritura, diz:   O Antigo Testamento emprega três palavras para designar um profeta, a saber, nabhi, ro’eh e chozeh. O sentido radical da palavra nabhi é incerto, mas, por passagens como Êx 7.1 e Dt 18.18, fica evidente que a palavra designa alguém que vem com mensagem da parte de Deus para o povo. As palavras ro’eh e chozeh acentuam o fato de que o profeta é alguém que recebe revelações da parte de Deus, particularmente na forma de visões. Outros designativos são “homens de Deus”, “mensageiro do Senhor” e “vigia”. Estes apelativos indicam que os profetas estão prestando serviços ao Senhor e velam pelos interesses espirituais do povo. No Novo Testamento usa-se a palavra prophetes, composta de pro e phemi. [...] a palavra prophemi não significa “falar de antemão”, mas “proferir”. O profeta é alguém que fala da parte de Deus. Desses nomes, tomados em conjunto, podemos deduzir que o profeta é alguém que vê coisas, isto é, que recebe revelações, que está a serviço de Deus, particularmente como mensageiro, e que fala em seu nome (2004, p. 328).


Soares corrobora a mesma definição de Berkhof e acrescenta ainda a quantidade de vezes em que cada palavra é apresentada nas Escrituras.  Nabi significa “porta-voz, orador, profeta”. De acordo com sua exposição, esta é a mais comum das definições e aparece 309 vezes (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTER, 1998, p. 904, apud, 2008, p. 98). A palavra hozeh “vidente”, ocorre por 18 vezes (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTER, 1998, p. 446, apud, IBDEM), e ro’eh, que também significa “vidente, como sinônimo de nabi ‘profeta’”, aparece 12 vezes (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTER, 1998, p. 1384, apud, IBDEM). Ainda em sua explicação, “a Septuaginta usa o termo (prophetes), do grego pro, “antes” e phemi “falar”, e a Vulgata Latina, propheta, para traduzir estes termos hebraicos” (2008, p. 98).

Andrade é simples em seu argumento, porém deixa importante detalhe para a
compreensão da palavra:

[Do hb. Nabi; do gr. prophetes] No Antigo Testamento, era a pessoa devidamente vocacionada e autorizada por Deus para falar por Deus e em lugar de Deus (Ez 2.1-10). O profeta era um mestre incontestável quando sob a inspiração do Espírito Santo (2007, p. 305, grifo meu).

Dentro dessa perspectiva, outro autor comenta que “profeta é um porta-voz de Deus cujo teor da mensagem é de admoestação ou predição. Em certo sentido, os patriarcas mencionados nas Escrituras foram os primeiros profetas, desde Adão até Moisés” (BOYER, 2006, p. 537). Ele explica, com detalhes, como se dá o início propriamente dito desta função de modo específico. Por isso, acentua:
No sentido estrito, é a partir de Samuel[1] que começa o ministério profético. Entre esses profetas, encontram-se Elias, Elizeu e Davi. A partir dessa época, começa outra ordem de profetas, divididos em duas classes: 1) Os Profetas Maiores[2]: Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel. 2) Os Profetas Menores, isto é, que deixaram escritos menos extensos que os livros dos Profetas Maiores, são em número de 12: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias (IBIDEM, grifos do autor).

“Os profetas são, portanto, a consciência espiritual da nação. São nomeados para fazer os reis, os sacerdotes e o povo lembrarem-se de suas obrigações diante de Deus e do próximo” (HALLEY, 2001, p. 295).

2.1.2. Outras configurações de profetas

De acordo com a exposição do termo, há ainda outras configurações de profetas inseridos no contexto escriturístico tanto vetero como neotestamentário. Duas classes distintas de profetas aparecem neste ambiente: os falsos profetas e as profetisas. “Está dito que os falsos profetas, embora não capacitados pelo Espírito divino, também profetizavam: “Não lhes falei a eles; todavia, eles profetizaram[3]” Jr 23.21. (VINE, 2004, p. 248). No Novo Testamento, a palavra em destaque para falso profeta é pseudoprophetes (VINE, 2004, p. 904). A palavra original para profetiza é (nebiah), e ocorre seis vezes no AT. (VINE, 2004, p. 249); enquanto no NT usa-se prophetis, o feminino de prophetes (ou seja, profeta) (VINE, 2004, p. 904). Boyer nos fornece explicações acerca destas configurações, seguindo a respectiva ordem:

Profetas falsos: Profetas impostores que se fazem passar por homens de Deus, mas não possuem autoridade divina, Dt 18.20; Is 9.15; Jr 14.13; Ez 13.3; Mt 7.15; 2Pe 2.1; 1Jo 4.1; Zedequias, 1Rs 22.11; Jr 29.21; Barjesus, At 13.6. Profetisa: O feminino de profeta; mulher que tinha revelações proféticas e as declarava. Exemplos: Miriã, Êx 15.20; Débora, Jz 4.4; Hulda, 2Rs 22.14; Ana, Lc 2.36; as quatro filhas de Filipe, At 21.9; v. Is 8.3; At 2.18; 1Co 11.5 (2006, p. 537, grifos do autor).

Do mesmo modo, com um detalhe mais intenso, somente acerca de profetisa “(heb., nevi’ah; gr. Prophetis)”, (DOUGLAS, Et All, 2006, p. 1102), outro autor acentua que, nos dois concertos, mulheres atuaram de modo relevante e particular em alguns casos:

Algumas profetisas do Antigo e do Novo Testamentos foram esposas de profetas, ou, pelo menos, atuaram em íntima associação com líderes masculinos do judaísmo ou do cristianismo. Contudo houve algumas exceções. As mulheres chamadas profetisas no Antigo Testamento são: Miriã, irmã de Moisés (Êx 15.20); Débora, Juíza de Israel (Jz 4.4); Hulda (IIRs 2.14); Noadia (Ne 6.14), profetisa falsa que se opôs a Neemias. A esposa de Isaías também é chamada “profetisa”, em Is 8.3; o que dá a entender que ela era mais do que simplesmente a esposa de um profeta. No Novo Testamento: Ana (Lc 2.36 ss); muitas profetisas estiveram ativas durante os tempos apostólicos (At 2.17; Ico 12.10, 28ss; 13.1ss; 14.1-33). O evangelista Filipe tinha quatro filhas que profetizavam (At 21.9). Jezabel foi uma notória profetisa falsa, que exercia considerável poder sobre as igrejas da Ásia Menor (Ap 2.20) (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 439).


Dessa forma, concluímos que essas duas classes sempre estiveram presentes entre os profetas verdadeiramente constituídos. Uns para auxílio, como no caso de algumas profetisas; outros para fins de confusão, como se percebe nos falsos profetas, que “eram indivíduos não reconhecidos pelo Senhor, a quem professavam servir” (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 438).

2.2. Contexto bíblico do profeta constituído

Neste momento, surge a necessidade de analisarmos como era a forma de
comportamento de um verdadeiro profeta constituído por Deus. É notório que a atuação de um profeta se estabelecia a partir do pressuposto de que se transmitia através dele uma mensagem de outrem. Em contexto geral, Hodge ressalta:

Segundo o uso bíblico, um profeta é alguém que fala em nome de outro. Em Êxodo 7.1, lemos: “Vê que te constituí como Deus sobre Faraó; e Arão, teu irmão, será teu profeta”. Moisés seria a fonte autoritativa da comunicação, e Arão, o órgão dessa fonte. Esta é a relação do profeta com Deus. Deus comunica, e o profeta anuncia a mensagem que ele recebeu. Em Êxodo 4.16, lemos de Arão em relação a Moisés: “Ele fará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus”. E em Jeremias 15.19, lemos sobre o profeta: “Serás a minha boca”. Na instituição de um profeta, ou na constituição de um homem como porta-voz de Deus, lemos: “Sucitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. De todo aquele que não ouvir minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas”. (Dt 18.18,19). Um profeta, pois, é alguém que fala em nome de Deus. Deve contudo, ser o órgão imediato de Deus (HODGE, 2001, p. 828).

O que foi exposto por Hodge é de outra maneira, entretanto, com a mesma essência, definido por Berkhof como sendo a reunião do que ele chama de “dois elementos” numa ação comum:  

As passagens clássicas de Êx 7.1 e Dt 18.18, indicam a presença de dois elementos na função profética, um passivo e outro ativo, um receptivo e outro produtivo. O profeta recebe revelações divinas em sonho, visões ou comunicações verbais; e as transmite ao povo, quer oralmente, quer visivelmente, nas ações proféticas, Nm 12.6-8; Is 6; Jr 1.4-10; Ez 3.1-4,17. Destes dois elementos, o passivo é o mais importante, porquanto ele governa o elemento ativo. Sem receber, o profeta não pode dar, e ele não pode dar mais do que recebe. Mas o elemento ativo também é parte integrante (2004, p. 328, 329).

Nessa ótica, percebemos perfeitamente que o profeta é alguém que possui intimidade com Deus e está sob as ordens de Deus, prestes a falar tudo aquilo que recebeu da parte Dele. Essas qualidades, sem dúvida, estiveram presentes na vida dos antigos profetas, os quais foram usados de maneira particular para mostrarem ao povo as verdades absolutas e atraírem as outras nações ao Deus de Israel[4]

2.3. A atuação de Jesus como Profeta

Na seção anterior, ainda que de forma singular, mostramos, em um contexto geral,
como os profetas se completavam e se relacionavam com Deus, agindo em conexão e estreita comunhão. Com Jesus não foi diferente. Ele possuía uma intimidade pessoal com o Pai e recebeu Dele a Unção do Profeta. Daquele que havia sido vaticinado por Moisés no livro de Deuteronômio[5]. Ele era o cumprimento daquela profecia e tinha por finalidade atrair todo o homem de volta a Deus, como se dava no princípio do Seu plano original para o homem. 

Cullmann descreve:

O antigo profetismo havia se extinguido progressivamente; e praticamente não existia mais senão sob a forma escrita de livros proféticos. Isto por si bastaria para mostrar que, ao chamar a Jesus “profeta”, não se classificava-o simplesmente em uma categoria profissional determinada. Porém, o argumento decisivo é que na maior parte das passagens onde este título é dado, Jesus não aparece somente como um profeta, mas como o profeta – a saber: o último profeta, aquele que deveria “cumprir” toda profecia, no final dos tempos (2008, p. 31). 

Em concordância com Cullmann, outro expositor destaca que “a vinda de Cristo,
juntamente com suas obras, estava prevista na Lei de Moisés e nos profetas, desde o seu nascimento até a sua ascensão ao céu”. E conclui: 

Deus prometeu levantar em Israel um Grande Profeta igual a Moisés [...] (Dt 18.15, 18). O apóstolo Pedro, mais de uma vez, no dia de Pentecostes e no discurso após a cura do coxo, na porta chamada Formosa, em Jerusalém, apresentou o perfil de Cristo no Antigo Testamento, provando assim que os últimos acontecimentos eram cumprimento das Escrituras. Ele afirma que essa profecia se cumpriu em Jesus (At 13.22, 23) (SOARES, 2008, p. 101).

“O testemunho dos profetas dizia que o Messias seria um profeta para iluminar Israel e as nações (Is 42.1; cf. Rm 15.8). Os evangelhos também representam Jesus da mesma forma, como profeta (Mc 6.15; Jo 4.19; 6.14; 9.17; Mc 6.4; 1.27) (PEARLMAN, 2006, p. 169). É importante a linha de raciocínio desse outro comentarista ao falar de como a nação de Israel serviria de bênção para as demais nações através do profeta semelhante a Moisés:

Essa predição [...] pode ter contido uma referência secundária à ordem profética como um todo, ou seja, à sucessão de profetas, tais como Isaías e Joel, que Deus suscitaria para enfrentar emergências na história de Israel. Entretanto, a linguagem dessa predição prenuncia inconfundivelmente um só indivíduo específico: o Messias. É uma das predições mais específicas a respeito de Cristo em todo o A.T. O próprio Jesus assim a entendeu (Jo 5.46) e Pedro também (At 3.22). A nação dos hebreus foi fundada por Deus para ser o meio pelo qual as outras nações em algum tempo futuro, seriam abençoadas. Aqui temos uma declaração explícita de que o sistema segundo o qual essa nação estava sendo organizada – aquele outorgado através de Moisés, ou seja, a Lei – não seria aquele mediante o qual Israel abençoaria todas as nações. Essa Lei seria substituída por outro sistema, outorgado por outro profeta, que conteria a mensagem de Israel a todas as nações. O judaismo seria cumprido pelo evangelho e substituído por ele (HALLEY, 2001, p. 144, 145, grifo meu).

Outro ponto de vista a considerar é o de Grudem, que diferencia das três últimas
citações e expõe que aqueles que chamaram Jesus de profeta não falaram com bases concretas, pois eram pessoas que O conheciam muito pouco. 

Afirma o autor:

Quando examinamos os evangelhos vemos que Jesus não é fundamentalmente visto como um profeta ou como o profeta semelhante a Moisés, apesar de referências eventuais a isso. Geralmente aqueles que chamavam Jesus de “profeta” conheciam muito pouco sobre ele. Por exemplo, várias opiniões circulavam a respeito dele: “Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas” (Mt 16.14; cf. Lc 9.8). Quando Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, as pessoas se atemorizaram e disseram que havia um grande profeta em seu meio (Lc 7.16). Quando Jesus disse à samaritana no poço um pouco de sua vida passada, ela respondeu imediatamente que percebia que ele era profeta (Jo 4.19). Mas ela até então não sabia muito acerca dele. A reação do homem cego de nascença curado no templo foi semelhante: “...é profeta (Jo 9.17) (1999, p. 523, 524, grifos do autor).

Grudem deseja mostrar que havia certa confusão na mente das pessoas, porque estavam à espera de um profeta que estava para chegar a qualquer momento. Revela que questionamentos eram claramente e constantemente expostos. Diz ele: “[...] após Jesus ter multiplicado os pães e os peixes, alguns exclamaram: “Este é, verdadeiramente, o profeta que devia vim ao mundo” (Jo 6.14; cf. 7.40) (1999, p. 524). E conclui, dizendo: “Pedro também identifica Cristo como o profeta predito por Moisés (veja At 3.22-24, citando Dt 18.15). Assim, Jesus é, de fato, o profeta predito por Moisés” (IBIDEM, grifo meu).

Nesse caso, com a informação de que Jesus foi o cumprimento daquela profecia,torna-se, à luz dessa revelação, o Excelente Profeta: o último, o maior e o mais importante de todos eles. Contudo, em momento algum Jesus apresentou-se como tal. Como explica
Letham, “ele nunca reivindicou especificamente esse ofício para si mesmo. Na verdade, em certas ocasiões, ele parece distanciar-se das opiniões populares de que ele era um profeta (cf. Mt 16. 13-17). Letham ainda ressalta:

Em nenhum momento ele usou a fórmula popular dos profetas: “veio a mim a palavra do Senhor”. Todos esses fatos são omissões significativas. Eles[6] parecem dissipar qualquer idéia de que ele fosse um profeta. [...] Uma observação mais de perto, todavia, indicará o motivo pelo qual Jesus pode ter sido reticente[7] em identificar a si mesmo como profeta. Teologicamente, o fator mais crucial é sua própria identidade pessoal. Como o Filho de Deus encarnado, ele era infinitamente maior que qualquer dos profetas do Antigo Testamento. Eles eram, todos eles, homens pecadores (2007, p. 89).

Como sua vinda a este mundo tinha o objetivo de resgatar o homem e trazê-lo de volta à comunhão com Deus, seria impossível não deixar transparecer que Ele era o cumprimento daquela profecia. “O profeta comumente unia três métodos para cumprir o seu ofício: ensino, predição e operações de milagres. Em todos estes respeitos Jesus realizou sua obra profética [...]” (STRONG, 2003, p. 371). Logo, perceberiam que Jesus era o profeta enviado por Deus para a restauração da humanidade.

No pensar de Hodge:

Quando foi predito que o Messias seria um profeta, também se predisse que ele seria um grande órgão de Deus para comunicar sua mente e vontade aos homens[8]. E quando nosso Senhor apareceu na terra, foi para falar as palavras de Deus. “E as palavras que estais ouvindo não é minha, mas do Pai, que me enviou” (Jo 14.24). “Jesus, o nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo” (Lc 24.19) (2001, p. 828).

Além de Sua manifestação para falar as Palavras de Deus, há ainda algumas atuações que definem Jesus como profeta. “As Escrituras do Novo Testamento afirmam que Jesus “...foi varão profeta, poderoso em obras e palavras” (Lc 24.19), assim como fora Moisés (At 7.22)” (GILBERTO, 2009, p. 145). 

A Escritura atesta de várias maneiras o ofício profético de Cristo. Ele é prenunciado como profeta em Dt 18.15, passagem aplicada a Cristo em At 3. 22, 23. Ele fala de si como profeta em Lc 13.33. Além disso, alega que traz uma mensagem do Pai, Jo 8. 26-28; 12.49, 50; 14.10, 24; 15.15; 17.8, 20; prediz coisas futuras, Mt 24.3-35; Lc 19.41-44, e fala com singular autoridade, Mt 7.29. Suas poderosas obras serviram para autenticar a Sua mensagem. Em vista disso tudo, não admira que o povo O tenha reconhecido como profeta, Mt 21.11, 46; Lc 7.16; 24.19; Jo 3.2; 4.19; 6.14; 7.40; 9.17[9] (BERKHOF, 2004, p. 329, 330).   

Dessa forma, percebe-se que o ofício profético de Jesus tem uma destacada importância. No exercício deste ofício profético por ocasião de sua estada terrena, e até mesmo entre os períodos mais remotos, Cristo revela-nos algumas particularidades. Um renomado autor refere-se a essas particularidades da seguinte forma: 

Cristo nos é revelado como o verbo eterno, o Logos, o Jeová manifestado e manifestante. Ele é a fonte de todo o conhecimento para o universo inteligente, especialmente para os filhos dos homens. Ele era, e é, a luz do mundo. É a verdade. Nele habitam todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento; e dele se irradia toda a luz que os homens recebem e obtêm.

Isso, ainda que independente de sua obra oficial como profeta na economia da redenção, é seu fundamento necessário. Não tivesse ele a plenitude da sabedoria divina, e não poderia ser a fonte de conhecimento, especialmente daquele conhecimento que é vida eterna para todo o seu povo. Sob a antiga dispensação, ou antes de seu advento na carne, ele fez conhecido Deus, seus propósitos e vontade, não só através de manifestações pessoais de si mesmo aos patriarcas e profetas, mas também através de seu Espírito, ao revelar a verdade e a vontade de Deus, ao inspirar os designados para registrar essas revelações e iluminar a mente de seu povo, conduzindo-os assim ao conhecimento salvívico da verdade. Enquanto na terra, ele continuou o exercício de seu ofício profético através de instruções pessoais, em discursos, parábolas, e exposições da lei e dos profetas; e em tudo isso ele ensinou concernente à sua própria pessoa e obra, e concernente ao processo e comunicação de seu reino (HODGE, 2001, p. 829). 

Dentro dessa linha exposta por Hodge, outro autor, de forma menos erudita, no
entanto mantendo as mesmas características do comentarista acima, corrobora, dizendo:

Cristo foi verdadeiro profeta, anunciado desde Moisés, (Dt 18.15). Os que creram em Jesus Cristo reconheceram ser ele o profeta que devia vim ao mundo (Jo 6.14; At 3.22). Ele revelou Deus e sua vontade, não apenas com palavras, mas também em pessoas e obras (Hb 1.3). Sua revelação do Pai é final na história da humanidade (Hb 1.1ss). Cristo realizou seu trabalho profético em diferentes épocas. De modo direto e pessoal, ele cumpriu sua função profética no período da vida terrena. Mas na preexistência, de modo indireto, ele exerceu a função de profeta, falando através de mensageiros, humanos ou angelicais (Jo 1.9; 1 Pe 1.11). Também depois da ascensão, ele falou pelo Espírito Santo aos apóstolos (Jo 16.12, 13, 25; 17.29). E parece que na glória ele continuará revelando as coisas do Pai aos santos (1 Co 13.12) (SEVERA, 1999, p. 239, 249).  

Numa narrativa puramente sistemática, Strong (2003, p. 374) divide em quatro aquilo que chama de “estágio da obra profética de Cristo”, e, na última consideração[10], ele diz que Jesus Cristo revelou “o Pai aos seus santos em glória (João 16.15; 17.24, 26; cf. Is 64.4; 1Cor. 13.12)”. Com isso, o exercício do ofício profético de Cristo, segundo ele, será sem fim, na mesma configuração do Pai, ou seja, se o Pai é infinito, seu ofício também o é. 
Concluímos, portanto, que a atuação de Jesus como profeta é muito mais significativa, por romper todas as eras e por não ter um prazo para o encerramento de tão gloriosa atuação.

Artigo extraído de: RODRIGUES, André. O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei. 2011, Editora Nossa Livraria - PE



[1] A palavra “profeta” ocorre ocasionalmente antes da época de Samuel, como por exemplo, em Gênesis 20.7 e Êxodo7.1. Samuel, no entanto, parece ter sido o fundador de uma ordem regular de profetas, com escolas primeiramente em Ramá (1Sm 19.20) e posteriormente em Betel, Jericó e Gilgal (2Rs 2.3,5; 4.38). O sacerdócio degenerara-se consideravelmente e, quando Samuel organizou a monarquia, deu início a essas escolas, pretendendo, segundo parece, que servissem de fiscalização moral, tanto para os sacerdotes quanto para os reis. Esses profetas atuaram por um período de aproximadamente 300 anos antes de surgirem os profetas que escreveram os 17 últimos livros do AT. Esses profetas dos tempos mais antigos são chamados “profetas orais”, para distingui-los dos profetas escritores ou literários, que escreveram os livros. Os principais profetas orais que conhecemos são: Samuel, o organizador da monarquia; Natã, o conselheiro de Davi; Aías, o conselheiro de Jeroboão; e Elias e Eliseu, os líderes da grande luta contra o baalismo (HALLEY, 2001, p. 179).  
[2] Alguns estudiosos têm objetado a chamarem os profetas de “maiores” e “menores”, como se exaltasse a alguns e aviltasse outros. No entanto, esses adjetivos tencionam indicar somente o volume de suas produções literárias (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 438).

[3] Cf. Jr 23.9-40. 
[4] O propósito de Deus em suscitar, a partir de Abraão, a nação de Israel, e, a partir daí, suscitar também profetas, foi exatamente o de atrair as demais nações que eram politeístas ao monoteísmo, ou seja, fazer com que as outras nações se voltassem para o Deus de Israel e obedecessem suas leis e seus preceitos. Soares ressalta que eles instruíram o povo de Israel. Ao longo de sua história, Deus levantou, preparou e inspirou profetas para admoestar os hebreus sobre o perigo da idolatria. Deus escolhia-os para ensinar, explicar de várias maneiras, como parábolas ou símiles, e orientar o povo, interpretando-lhes o significado da sua história, para sua edificação espiritual (Os 12.10). Eram ensinadores ungidos e escolhidos por Deus para instruir a nação a viver na presença de Javé, para tornar conhecida sua revelação e também anunciar as coisas futuras (Nm 12.6; 1 Rs 19.16; Jr 18.18) (2008, p. 99).

[5] Confira este assunto, com maior detalhe, no cap. I, na seção “A tipologia do Cristo”.
[6] Aqui é uma referência aos discípulos, na conversa descrita em  Mt 16.13-17, como mostrado acima no começo da citação.

[7] O mesmo que “reservado (AURÉLIO).

[8] Cf. Dt 18.18b.

[9] Nas citações dos versículos: Lc 7.16; Jo 4.19; 9.17, Berkhof, usando-as, fundamenta o argumento de que Cristo era sim reconhecido como profeta. Com esta afirmação, contradiz Grudem na citação acima.
[10] As primeiras considerações descritas por Strong são: A obra preparatória do Logos; O ministério terreno do Cristo encarnado e A direção e o ensino da sua igreja na terra, desde a Sua ascensão. Estas, por sua vez, encontram-se nas pág. 372 e 373, da referida obra.  
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