segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A CONSOLIDAÇÃO DA DOUTRINA DOS OFÍCIOS EM AMBOS OS TESTAMENTOS - Por André Rodrigues



Como foi possível observar, os ofícios estabelecidos por Deus, no pacto passado, com extensão tipológica para o pacto futuro, foram desenvolvidos para a manutenção da ordem, tanto para a nação de Israel como para a Igreja[1], no plano secundário. Esses ofícios, no Antigo Testamento, eram distintos[2], e apenas em raros casos há ocorrência da “união[3] deles na mesma pessoa sob a teocracia, como é o caso de Moisés, que foi, ao mesmo tempo, sacerdote e profeta, e Davi, que foi profeta e rei”, (HODGE, 2001, p. 825). Quanto a sua consolidação na pessoa de Cristo, o autor ainda declara:


No Velho Testamento, os vários ofícios eram distintos. [...] O Messias, durante a teocracia e no uso de linguagem tal como então se entendia, foi predito como profeta, sacerdote e rei. Moisés falando de Cristo, disse: “O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim”. Foi sobejamente ensinado que um verdadeiro libertador iria exercer todos os deveres de um profeta como revelador da vontade de Deus. Iria ser um grande mestre de justiça; luz para alumiar os gentios, bem como glória de seu povo Israel. E não menos clara e amiúde se declarava que ele seria sacerdote. “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque”; e deveria ser um sacerdote em seu trono (Sl 110.4; Zc 6.13). Deveria levar os pecados do povo e fazer intercessão pelos transgressores. Seu ofício régio é apresentado de maneira tão proeminente nas profecias messiânicas que os judeus o esperavam só na qualidade de rei. Ele reinaria sobre todas as nações. Seu reino não teria fim. Seria Senhor dos senhores e Rei dos reis (IBIDEM).




É consideravelmente possível afirmarmos uma estreita conexão entre o Messias, aquele que é o Ungido, e o fato de que todos os profetas (1Rs 19.16, Is 61.11), sacerdotes (Êx 30.30; 40.13) e reis (1Sm 10.1; 15.1; 1Rs 19.15,16) somente iniciavam seu ministério após serem ungidos (RYRIE, 2004, p. 291). Dessa forma, clareia-se a idéia de que, no Antigo Testamento, esses ofícios eram literalmente aplicados e, em escala superior, refletiam, em tipo, o que seria perfeitamente desempenhado por Jesus.
No Novo Testamento, essa consolidação deu-se, é claro, em Jesus. Ele é o Cristo, o Ungido. É fácil entendermos, pela compreensão do significado das palavras Mesiha (aramaico), Masiah (hebraico), Christós (grego) e Chistus (Latim, derivado do grego)[4] (COENEN; BROWN, 2000, p. 1079), que Ele recebeu uma unção diferente, a qual, por sua vez, agrega Nele o tríplice ofício: como Profeta, revelar-nos Deus e nos transmitir Sua palavra; como Sacerdote, oferecer-se a Deus como sacrifício em nosso favor; e como Rei, governar tanto a Igreja como o próprio universo (GRUDEM, 1999, p. 523, grifo nosso). Ratificando essa citação, outro autor destaca:


No Novo Testamento, o Redentor, ao assumir o ofício de Messias prometido, apresentou-se ao povo como seu profeta, sacerdote e rei; e os que os receberam, receberam-no em todos esses ofícios. Ele aplicou a si mesmo todas as profecias referentes ao Messias. Referiu-se a Moisés, predizendo o Messias como profeta; a Davi, estabelecendo-o como sacerdote; e às profecias de Daniel, concernentes ao Reino que ele veio estabelecer. Os apóstolos o receberam como o mestre enviado por Deus para revelar o plano de salvação e para desenvolver o destino futuro da Igreja. No primeiro capítulo da Epístola aos Hebreus, lemos: “Havendo Deus outrora falado muitas vezes, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo”. Nessa Epístola, o sacerdócio de Cristo é apresentado de maneira elaborada. [...] De igual modo, o Novo Testamento está cheio de instrução concernente às bases, natureza, extensão, e duração de seu reino. Ele é constantemente designado como senhor, como nosso dono e soberano absoluto. Nada, pois, pode ser mais claro do que o fato de que os profetas do Velho Testamento predisseram que o Messias seria profeta, sacerdote e rei, de sorte que o Novo Testamento descreve o Senhor Jesus mantendo todos esses ofícios (HODGE, 2001, p. 826).  


Portanto, é provada a consolidação desses ofícios na pessoa de Jesus. No Antigo Testamento, através dos tipos referentes a Ele; no Novo, através de Seu ministério e da aplicação do adjetivo Cristo a Sua pessoa. Como foi observado em outro lugar, Ele é o Ungido por excelência, nosso Profeta, Sacerdote e Rei.


Artigo extraído de: RODRIGUES, André. O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei. 2011, Editora Nossa Livraria - PE



[1] Neste sentido, a concentração desses ofícios distintos em Jesus.   

[2] Hodge (2001, p. 825) explica: “O profeta, como tal, não era sacerdote; e o rei não era nem sacerdote nem rei”.

[3] No tocante a união destes ofícios numa só pessoa, Soares (2008, p. 172, 173) afirma que a família dos Macabeus e os papas da Idade Média atreveram-se a acumular os ofícios de rei e sacerdote. Aristóbulo I, filho de Hircano, descendente de Matatias, sacerdote da linhagem de Jeoiaribe (I Cr 24.7), foi o primeiro a usar o título “Rei dos Judeus”, segundo Josefo. Porém, seu reinado não durou muito, pois foi substituído por seu irmão Alexandre Janeu. Depois deles, alguns papas na Idade Média esforçaram-se para ter o domínio do poder espiritual e temporário, entre eles Gregório VII (1073-1085) e Inocêncio III (1198-1216). Todos reivindicaram indevidamente essa posição, que é exclusiva de Jesus (Ap. 19.11-13).
[4] Todas essas palavras significam, respectivamente, Messias, Cristo e Ungido, e definem alguém como Ungido por Excelência, Jesus.

sábado, 14 de dezembro de 2013

DAVI, O MAIOR REI DA HISTÓRIA DE ISRAEL - Por André Rodrigues



Depois da inevitável queda de Saul, Davi é escolhido por Deus para assumir o reinado na nação judaica. Inicialmente, sua escolha e também sua unção ocorrera de modo oculto[1], para não haver represálias por parte de Saul. “A unção não podia ter sido realizada abertamente, pois nesse caso Saul teria matado Davi” (HALLEY, 2001, p. 181). Logo após Samuel ungir Davi, conforme o mandado do Senhor, as Escrituras retratam que “desde aquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apoderou de Davi” (I Sm 16.13). Mulder (2009, vol. 2, p. 208) ressalta que isso foi possível, unicamente, com a finalidade de “dotá-lo com sabedoria e poder”, e para que servisse de “orientação para o cumprimento dos propósitos de Deus para a sua vida”. Num pequeno trecho do livro de Atos, Lucas detalha as palavras de Paulo no discurso aos judeus, na sinagoga de Antioquia da Pisídia[2], dizendo:

O Deus deste povo de Israel escolheu a nossos pais e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egito; e com braço poderoso o tirou dela; e suportou os seus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos. E, destruindo a sete nações na terra de Canaã, deu-lhes por sorte a terra deles. E, depois disto, por quase quatrocentos anos, lhes deu juízes, até ao profeta Samuel. E, depois, pediram um rei, e Deus lhes deu, por quarenta anos, a Saul, filho de Quis, varão da tribo de Benjamim. E, quando este foi retirado, lhes levantou como rei a Davi, ao qual também deu testemunho e disse: Achei a Davi, filho de Jessé[3], varão conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade (At 13.17-22, ARC, grifo meu).


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

COMO PROCEDEU A INSTITUIÇÃO DOS SACERDOTES - Por André Rodrigues




De uma coisa sabemos: “no Antigo Testamento, os sacerdotes eram designados por Deus para oferecer sacrifícios” (GRUDEM, 1995, p. 525). Mas como explicar o estabelecimento exato dessa classe, que representaria perpetuamente o povo diante de Deus? Halley (2001, p. 127) destaca que “o sacerdócio levítico foi ordenado por Deus para servir de mediador entre Deus e a nação hebraica, mediante a oferta de animais sacrificiais”. Os levitas foram separados por Deus para ficarem à frente dos serviços vinculados ao Tabernáculo e, consequentemente, aos serviços no Templo, posteriormente. De maneira detalhada, esse comentarista acentua:
 
Os levitas são todos os pertencentes à tribo de Levi, uma das doze tribos de Israel. [...] Deus nomeou os levitas para tomar o lugar dos primogênitos no serviço a Deus[1]. Uma família ou clã dos levitas, a família de Arão, foi separada para o sacerdócio. O restante dos levitas dariam assistência aos sacerdotes. Entre seus deveres estavam o cuidado do Tabernáculo e posteriormente o cuidado do Templo, bem como as funções de mestres, escribas, músicos, oficiais e juízes. [...] A tribo de Levi foi a única que não obteve terras depois de os israelitas terem conquistado Canaã. Em contrapartida, receberam 48 cidades, espalhadas por todas as partes do país (Nm 35.7; Js 21.19). Como não receberam terras, não conseguiam sustentar a si mesmos – seu sustento provinha dos dízimos do restante de Israel (HALLEY, 2001, p. 125).


Dentro dessa perspectiva, agora numa visão centrada exatamente na constituição da hereditariedade de Arão para o sacerdócio perpétuo, Gilberto ressalta:


No tocante ao sacerdócio araônico, está escrito: “...ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão (Hb 5.4). A escolha dele para exercer o sacerdócio não se deu devido ao seu parentesco com Moisés. Foi um ato soberano de Deus (GILBERTO, Et All, 2009, p. 144).


sexta-feira, 21 de junho de 2013

SACERDOTE NO CONTEXTO VETEROTESTAMENTÁRIO - Por André Rodrigues





Todo estudante das Escrituras percebe que o Antigo Testamento destaca-se, mesmo como uma questão cultural[1], na prática de ofertas e sacrifícios[2], que são uma constante. Nas questões relativas ao pecado era, dentre outras, função do sacerdote[3] interceder a Deus pelo povo e consequentemente também por si mesmo. Vimos que a relação de Deus com o homem era exercida (em maior parte) através dos profetas. Porém, a representação do povo para com Deus era possível apenas mediante a atuação dos sacerdotes e do sumo sacerdote.


Enquanto os profetas são predominantemente os porta-vozes de Deus e aplicam a palavra de Deus na situação dos seus contemporâneos, os sacerdotes são aqueles cujo a função principal é a de interceder por outros seres humanos na presença de Deus. De forma simples, se o profeta é o representante de Deus diante da humanidade, o sacerdote é o representante da humanidade diante de Deus (LETHAM, 2007, p. 103).



Os sacerdotes foram constituídos por Deus. Andrade nos mostra que “no Antigo Testamento, era o ministro divinamente designado, cuja principal função era representar o homem diante de Deus” (2007, p. 324). Em harmonia com esse autor, mas explorando as demais funções exclusivas dos sacerdotes, outro escritor destaca:

terça-feira, 9 de abril de 2013

A MANIFESTAÇÃO DOS OFÍCIOS EM JESUS - Por André Rodrigues



A MANIFESTAÇÃO DOS OFÍCIOS EM JESUS


 Depois de analisar questões voltadas a definições, passaremos a analisar como se procedeu em Jesus Cristo os ofícios de Profeta, Sacerdote e Rei, traçando um paralelo entre seus usos e aplicações no passado com os mesmos papéis desempenhados pelo Senhor em Seu Ministério. Analisaremos cada seção que revele esses ofícios tanto nos evangelhos como nos outros escritos do Novo Testamento.   


1. O que é um profeta  
     

Para darmos início a esta discussão, é necessário definirmos, de modo acentuado, os conceitos de cada expressão no original dada ao termo profeta. Berkhof faz uso desta prerrogativa na seção chamada por ele de “A ideia escriturística de profeta”. Fazendo uso dos termos aplicados na Escritura, diz:   



O Antigo Testamento emprega três palavras para designar um profeta, a saber, nabhi, ro’eh e chozeh. O sentido radical da palavra nabhi é incerto, mas, por passagens como Êx 7.1 e Dt 18.18, fica evidente que a palavra designa alguém que vem com mensagem da parte de Deus para o povo. As palavras ro’eh e chozeh acentuam o fato de que o profeta é alguém que recebe revelações da parte de Deus, particularmente na forma de visões. Outros designativos são “homens de Deus”, “mensageiro do Senhor” e “vigia”. Estes apelativos indicam que os profetas estão prestando serviços ao Senhor e velam pelos interesses espirituais do povo. No Novo Testamento usa-se a palavra prophetes, composta de pro e phemi. [...] a palavra prophemi não significa “falar de antemão”, mas “proferir”. O profeta é alguém que fala da parte de Deus. Desses nomes, tomados em conjunto, podemos deduzir que o profeta é alguém que vê coisas, isto é, que recebe revelações, que está a serviço de Deus, particularmente como mensageiro, e que fala em seu nome (2004, p. 328).




Soares corrobora a mesma definição de Berkhof e acrescenta ainda a quantidade de vezes em que cada palavra é apresentada nas Escrituras.  Nabi significa “porta-voz, orador, profeta”. De acordo com sua exposição, esta é a mais comum das definições e aparece 309 vezes (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTER, 1998, p. 904, apud, 2008, p. 98). A palavra hozeh “vidente”, ocorre por 18 vezes (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTER, 1998, p. 446, apud, IBDEM), e ro’eh, que também significa “vidente, como sinônimo de nabi ‘profeta’”, aparece 12 vezes (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTER, 1998, p. 1384, apud, IBDEM). Ainda em sua explicação, “a Septuaginta usa o termo (prophetes), do grego pro, “antes” e phemi “falar”, e a Vulgata Latina, propheta, para traduzir estes termos hebraicos” (2008, p. 98).
Andrade é simples em seu argumento, porém deixa importante detalhe para a compreensão da palavra:



[Do hb. Nabi; do gr. prophetes] No Antigo Testamento, era a pessoa devidamente vocacionada e autorizada por Deus para falar por Deus e em lugar de Deus (Ez 2.1-10). O profeta era um mestre incontestável quando sob a inspiração do Espírito Santo (2007, p. 305, grifo meu).




Dentro dessa perspectiva, outro autor comenta que “profeta é um porta-voz de Deus cujo teor da mensagem é de admoestação ou predição. Em certo sentido, os patriarcas mencionados nas Escrituras foram os primeiros profetas, desde Adão até Moisés” (BOYER, 2006, p. 537). Ele explica, com detalhes, como se dá o início propriamente dito desta função de modo específico. Por isso, acentua:


No sentido estrito, é a partir de Samuel[1] que começa o ministério profético. Entre esses profetas, encontram-se Elias, Elizeu e Davi. A partir dessa época, começa outra ordem de profetas, divididos em duas classes: 1) Os Profetas Maiores[2]: Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel. 2) Os Profetas Menores, isto é, que deixaram escritos menos extensos que os livros dos Profetas Maiores, são em número de 12: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias (IBIDEM, grifos do autor).




“Os profetas são, portanto, a consciência espiritual da nação. São nomeados para fazer os reis, os sacerdotes e o povo lembrarem-se de suas obrigações diante de Deus e do próximo” (HALLEY, 2001, p. 295).



1.2. Outras configurações de profetas


De acordo com a exposição do termo, há ainda outras configurações de profetas inseridos no contexto escriturístico tanto vetero como neotestamentário. Duas classes distintas de profetas aparecem neste ambiente: os falsos profetas e as profetisas. “Está dito que os falsos profetas, embora não capacitados pelo Espírito divino, também profetizavam: “Não lhes falei a eles; todavia, eles profetizaram[1]” Jr 23.21. (VINE, 2004, p. 248). No Novo Testamento, a palavra em destaque para falso profeta é pseudoprophetes (VINE, 2004, p. 904). A palavra original para profetiza é (nebiah), e ocorre seis vezes no AT. (VINE, 2004, p. 249); enquanto no NT usa-se prophetis, o feminino de prophetes (ou seja, profeta) (VINE, 2004, p. 904). Boyer nos fornece explicações acerca destas configurações, seguindo a respectiva ordem:



Profetas falsos: Profetas impostores que se fazem passar por homens de Deus, mas não possuem autoridade divina, Dt 18.20; Is 9.15; Jr 14.13; Ez 13.3; Mt 7.15; 2Pe 2.1; 1Jo 4.1; Zedequias, 1Rs 22.11; Jr 29.21; Barjesus, At 13.6. Profetisa: O feminino de profeta; mulher que tinha revelações proféticas e as declarava. Exemplos: Miriã, Êx 15.20; Débora, Jz 4.4; Hulda, 2Rs 22.14; Ana, Lc 2.36; as quatro filhas de Filipe, At 21.9; v. Is 8.3; At 2.18; 1Co 11.5 (2006, p. 537, grifos do autor).



Do mesmo modo, com um detalhe mais intenso, somente acerca de profetisa “(heb., nevi’ah; gr. Prophetis)”, (DOUGLAS, Et All, 2006, p. 1102), outro autor acentua que, nos dois concertos, mulheres atuaram de modo relevante e particular em alguns casos:



Algumas profetisas do Antigo e do Novo Testamentos foram esposas de profetas, ou, pelo menos, atuaram em íntima associação com líderes masculinos do judaísmo ou do cristianismo. Contudo houve algumas exceções. As mulheres chamadas profetisas no Antigo Testamento são: Miriã, irmã de Moisés (Êx 15.20); Débora, Juíza de Israel (Jz 4.4); Hulda (IIRs 2.14); Noadia (Ne 6.14), profetisa falsa que se opôs a Neemias. A esposa de Isaías também é chamada “profetisa”, em Is 8.3; o que dá a entender que ela era mais do que simplesmente a esposa de um profeta. No Novo Testamento: Ana (Lc 2.36 ss); muitas profetisas estiveram ativas durante os tempos apostólicos (At 2.17; Ico 12.10, 28ss; 13.1ss; 14.1-33). O evangelista Filipe tinha quatro filhas que profetizavam (At 21.9). Jezabel foi uma notória profetisa falsa, que exercia considerável poder sobre as igrejas da Ásia Menor (Ap 2.20) (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 439).



Dessa forma, concluímos que essas duas classes sempre estiveram presentes entre os profetas verdadeiramente constituídos. Uns para auxílio, como no caso de algumas profetisas; outros para fins de confusão, como se percebe nos falsos profetas, que “eram indivíduos não reconhecidos pelo Senhor, a quem professavam servir” (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 438).


2.1. Contexto bíblico do profeta constituído


 Neste momento, surge a necessidade de analisarmos como era a forma de comportamento de um verdadeiro profeta constituído por Deus. É notório que a atuação de um profeta se estabelecia a partir do pressuposto de que se transmitia através dele uma mensagem de outrem. Em contexto geral, Hodge ressalta:



Segundo o uso bíblico, um profeta é alguém que fala em nome de outro. Em Êxodo 7.1, lemos: “Vê que te constituí como Deus sobre Faraó; e Arão, teu irmão, será teu profeta”. Moisés seria a fonte autoritativa da comunicação, e Arão, o órgão dessa fonte. Esta é a relação do profeta com Deus. Deus comunica, e o profeta anuncia a mensagem que ele recebeu. Em Êxodo 4.16, lemos de Arão em relação a Moisés: “Ele fará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus”. E em Jeremias 15.19, lemos sobre o profeta: “Serás a minha boca”. Na instituição de um profeta, ou na constituição de um homem como porta-voz de Deus, lemos: “Sucitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. De todo aquele que não ouvir minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas”. (Dt 18.18,19). Um profeta, pois, é alguém que fala em nome de Deus. Deve contudo, ser o órgão imediato de Deus (HODGE, 2001, p. 828).




O que foi exposto por Hodge é de outra maneira, entretanto, com a mesma essência, definido por Berkhof como sendo a reunião do que ele chama de “dois elementos” numa ação comum: 



As passagens clássicas de Êx 7.1 e Dt 18.18, indicam a presença de dois elementos na função profética, um passivo e outro ativo, um receptivo e outro produtivo. O profeta recebe revelações divinas em sonho, visões ou comunicações verbais; e as transmite ao povo, quer oralmente, quer visivelmente, nas ações proféticas, Nm 12.6-8; Is 6; Jr 1.4-10; Ez 3.1-4,17. Destes dois elementos, o passivo é o mais importante, porquanto ele governa o elemento ativo. Sem receber, o profeta não pode dar, e ele não pode dar mais do que recebe. Mas o elemento ativo também é parte integrante (2004, p. 328, 329).




Nessa ótica, percebemos perfeitamente que o profeta é alguém que possui intimidade com Deus e está sob as ordens de Deus, prestes a falar tudo aquilo que recebeu da parte Dele. Essas qualidades, sem dúvida, estiveram presentes na vida dos antigos profetas, os quais foram usados de maneira particular para mostrarem ao povo as verdades absolutas e atraírem as outras nações ao Deus de Israel[2]


2.2. A atuação de Jesus como Profeta


Na seção anterior, ainda que de forma singular, mostramos, em um contexto geral, como os profetas se completavam e se relacionavam com Deus, agindo em conexão e estreita comunhão. Com Jesus não foi diferente. Ele possuía uma intimidade pessoal com o Pai e recebeu Dele a Unção do Profeta. Daquele que havia sido vaticinado por Moisés no livro de Deuteronômio[3]. Ele era o cumprimento daquela profecia e tinha por finalidade atrair todo o homem de volta a Deus, como se dava no princípio do Seu plano original para o homem. Cullmann descreve:        

                                                                

O antigo profetismo havia se extinguido progressivamente; e praticamente não existia mais senão sob a forma escrita de livros proféticos. Isto por si bastaria para mostrar que, ao chamar a Jesus “profeta”, não se classificava-o simplesmente em uma categoria profissional determinada. Porém, o argumento decisivo é que na maior parte das passagens onde este título é dado, Jesus não aparece somente como um profeta, mas como o profeta – a saber: o último profeta, aquele que deveria “cumprir” toda profecia, no final dos tempos (2008, p. 31).




Em concordância com Cullmann, outro expositor destaca que “a vinda de Cristo, juntamente com suas obras, estava prevista na Lei de Moisés e nos profetas, desde o seu nascimento até a sua ascensão ao céu”. E conclui:



Deus prometeu levantar em Israel um Grande Profeta igual a Moisés [...] (Dt 18.15, 18). O apóstolo Pedro, mais de uma vez, no dia de Pentecostes e no discurso após a cura do coxo, na porta chamada Formosa, em Jerusalém, apresentou o perfil de Cristo no Antigo Testamento, provando assim que os últimos acontecimentos eram cumprimento das Escrituras. Ele afirma que essa profecia se cumpriu em Jesus (At 13.22, 23) (SOARES, 2008, p. 101).


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