domingo, 18 de julho de 2010

A RELEVÊNCIA DOS DÍZIMOS E DAS OFERTAS A LUZ DA TEOLOGIA DO N.T. - Por André Rodrigues

Dízimos e ofertas é um assunto de importância sui generi. Diversas são as especulações quando o que está em pauta é a doação de algo. No Pacto passado era prática comum a de ofertas e dízimos. Setecentos anos antes da instituição da lei mosaica propriamente dita, Abrão depois da batalha com os reis, deu dízimo dos despojos ao sacerdote-rei de Salém, Melquisedeque, que por sua vez, era reconhecido como “Sacerdote do Deus-Altíssimo”.

As ofertas alçadas, ou seja, voluntárias, eram depositadas tanto quanto os dízimos, para fins específicos. Halley acentua que havia naquela dispensação pelo menos três tipos característicos de dízimo: “o dízimo levítico, o dízimo para as festas e, de três em três anos os dízimos para os pobres” (2001, p. 132). “A décima parte dos produtos da terra e do aumento dos rebanhos e das manadas devia ser dada a Deus; é isto que é chamado de dízimo (Gn 14.20; 28.22; Lv 27. 30-32; Nm 18.21-28 etc.)” (HALLEY, 2001, p. 131).

Na dispensação neotestamentária a situação não é mais derivada de leis cerimoniais, a contribuição dos dízimos e das ofertas, agora, parte do pressuposto da fé, ou seja, existe uma conscientização na igreja local, no tocante, ao ato de dizimar e ofertar, com o intuito de cooperar com reino de Deus, de modo financeiro, quer dizer, cuidar das necessidades básicas comuns de nossa realidade hodierna. É importante salientar que ainda hoje em determinados lugares, as ofertas e os dízimos refletem uma realidade passada, como no caso de algumas das igrejas da África, por exemplo, que trazem a décima parte de vossa colheita.

Estas contribuições voluntárias dos dízimos e das ofertas na visão do Novo Testamento são respaldadas à luz da Bíblia. Diversos exemplos de comportamento, no tocante, a contribuição nas igrejas, são largamente observados principalmente nas cartas do apóstolo Paulo. Certo teólogo disse que quase todas as epístolas escritas por Paulo, nasceram da “necessidade de”, enquanto ao escrever aos Filipenses, o apóstolo muda o cenário e emprega o “agradecimento a”. Reporto-me ao exemplo destes últimos crentes, por haver naquela epístola agradecimento do apóstolo quanto à contribuição voluntária, tanto para a igreja de Jerusalém, que havia ficado em situação difícil depois de venderem suas propriedades à espera da iminente volta de Jesus, como também, para o sustento do próprio apóstolo, como gratidão a todos os benefícios que este os haviam feito. Disse o apóstolo: “Todavia fizeste bem em tomar parte na minha aflição. E bem sabeis também vós, ó filipenses, que, no princípio do evangelho, quando partir da Macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente. Porque também, uma e outra vez, me mandaste o necessário a Tessalônica. Não que procure dádivas, mas procuro o fruto que aumente a vossa conta. Mas bastante tenho recebido e tenho abundância; cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, como cheiro de suavidade e sacrifício agradável e aprazível a Deus”. (Fl 4.14-18 ARC, grifo meu). A frase destacada sem dúvidas tem a sua relevância na teologia do Novo Testamento, quanto às contribuições, que refletem não somente em dar de modo regulamentar de maneira mecânica, mas para os que fazem, entendendo a importância real da mordomia cristã, sabe que se torna em sacrifício que Deus se agrada.

sábado, 10 de julho de 2010

OS LIVROS APÓCRIFOS NO CRISTIANISMO




























Ao ler o Novo Testamento, torna-se bem óbvio que seus escritores e leitores dos primeiros dias estavam familiarizados com, pelo menos, alguns dos livros apócrifos, não apenas aqueles que eles herdaram dos judeus na Septuaginta, mas também com uma coleção mais ampla de escritos. A referência mais clara pode ser encontrada em Judas, versículos 14-16, onde o autor faz uma citação, sem dúvida de memória, de Enoque 1.9, lembrando a profecia de "Enoque, a sétima geração depois de Adão". A exceção dessa citação mais ou menos direta, muitas alusões à literatura apócrifa. As palavras, "Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate", registradas em Hebreus 11.35, nos faz lembrar o martírio de Eleazar e dos Sete Irmãos em II Macabeus 6 e 7, e "foram... serrados pelo meio" de Hebreus 11.37 é, sem dúvida, uma alusão ao Martírio de Isaías, enquanto as frases "o resplendor da glória" e "a expressão exata de seu Ser" em Hebreus 1.3 nos lembra forçosamente o Livro de Sabedoria 7.26. Ecos do Livro de Sabedoria provavelmente podem ser ouvidos também nas palavras dos principais sacerdotes em relação a Jesus, em sua agonia, em Mateus 27.43: "Pois venha livrá-lo agora, se de fato lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus" (cf. Sabedoria 2.18); assim também nas cartas de Paulo, tais como Romanos 1.20-32 (Sabedoria 14.22-31), Romanos 9.21 (Sabedoria 15.7), II Coríntios 5.4 (Sabedoria 9.15) e Efésios 6.13-17 (Sabedoria 5.18-20). Além disso, certos sentimentos e frases familiares ao leitor cristão nos Evangelhos têm seu paralelo direto no Testamentos dos Doze Patriarcas, expressões como perdoar o próximo (Mateus 18.21, cf. Testamento de Gade 6.3,7), amar de todo o coração (Mateus 22.37-39, cf. Testamento de Dã 5.3), e retribuir o mal com o bem (Lucas 6.27s, cf. Testamento de José 8.2). Isso demonstra como o conteúdo dos ensinamentos morais de Jesus estava próximo do ideal moral do judaísmo.
A disputa entre Miguel e o diabo, pelo corpo de Moisés em Judas 9, deriva de A Assunção de Moisés, e a doutrina dos espíritos aprisionados em I Pedro 3.19 é baseada em Enoque 14-15. A Epístola de Tiago tem muito em comum com os livros apócrifos; o escritor certamente estava familiarizado com Ben Sira, de cujo pensamento e experiência ele compartilhava (cf. por exemplo, Tiago 1.19 e Ben Sira 5.11). O Novo Testamento faz referências a escritos desconhecidos (cf. I Coríntios 2.9; Efésios 5.14; I Timóteo 3.16) e faz citações de fontes desconhecidas (Mateus 23.34,35; cf. Lucas 11.49-51), enquanto em uma passagem (II Timóteo 3.8) faz alusão a Janes e Jambres, cujos nomes foram usados para o título de um livro apócrifo, do que temos conhecimento a partir de escritos que surgiram posteriormente.
Sem dúvida, os cristãos primitivos consideravam esses livros religiosamente edificantes, não apenas em suas devoções pessoais, mas também no ensino dos catecúmenos. A questão da canonicidade não era sequer cogitada a essa altura. Esse problema ainda seria suscitado e resolvido pela Igreja em expansão.


 EXTRAÍDO DO LIVRO: Entre o Antigo e o Novo Testamentos / O Período Interbíblico
 D.S.Russell 2" Edição no Brasil
 Maio de 2007 - Editora e Divulgadora Cultural Ltda.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O QUE SIGNIFICA A PALAVRA CRISTO - Por André Rodrigues

Em língua portuguesa o estudo das palavras define-se como etimologia, que averigua dentre outras coisas a história e as mudanças dos significados de acordo com a época, enfim. Etimologicamente, a palavra Cristo, tem significado particular e isto é possível porque não há constante variação nos idiomas hebraico e grego, de onde esta se deriva. É, basicamente impossível haver discordância entre os expoentes de léxicos. Entretanto, pode haver mudanças nos vocábulos e, mesmo assim, o significado permanece o mesmo, se mantendo unânime no sentido e na aplicação.

Na definição de Champlin, a palavra Cristo é a:

[...] Transliteração do adjetivo verbal grego, Christós, que significa ungido. Essa palavra hebraica, por sua vez traduz o termo hebraico mashiach, que tem o mesmo sentido. Essa palavra hebraica foi absorvida pelo grego sob a forma modificada de messias, conforme se vê em João 14:1 e 4:25. É daí que vem a palavra portuguesa Messias. [...] O termo Messias através de sua tradição grega, e, daí, para o português, tornou-se parte integrante do nome de Jesus, pois ele é Jesus, o Cristo, ou então, o Senhor Jesus Cristo, ou o Filho, Jesus Cristo, que é nosso Senhor. (1995, p. 977).

Nota-se, que o estudioso acima teve a preocupação de mostrar a raiz desta palavra dando ênfase no texto que cita. Inicialmente, trazendo a informação do grego e posteriormente faz menção ao seu uso. Contudo, a idéia de Cristo, ou seja, a idéia de Messias, é maior contextualizada no aramaico e hebraico, como expõe Coenen e Brown:

“Cristo” é derivado através do Lat. Christus, do Gr. Christos, que, na LXX e no NT é o equivalente gr. do Aram. mesiha. Essa palavra, por sua vez, corresponde ao Heb. masiah, e denota uma pessoa que foi cerimonialmente ungida para um cargo [...]. A transliteração gr. de mesiah é Messias, que [...] ocorre apenas duas vezes no NT gr., somente em Jo 1:41,4:25. Em ambas as ocasiões, refere-se a Jesus de Nazaré. A LXX não emprega a palavra estrangeira mas, assim como no NT (excetuando-se as passagens supra mencionadas), emprega com consistência a palavra gr. correspondente. Não foram, portanto, os cristãos os primeiros a cunharem esta palavra. Ao empregá-la no NT, os autores e suas formas literárias estavam adotando, sem dúvida alguma, uma palavra e um conceito que já estavam disponíveis e em uso corrente no período pré-cristão. Esta situação é evidenciada pelos escritos veterotestamentários apócrifos e pseudepígrafos , entre outros. (2000, p. 1079).

As definições acima deixam evidentes que o emprego desta palavra é particular àquele que é Ungido, termo comumente encontrado nos escritos canônicos veterotestamentários. Desta forma, explica Vine na segunda parte de sua obra que define o significado de algumas palavras gregas:
Chistos (“ungido”, traduz, na Septuaginta, a palavra “Messias”, termo aplicado aos sacerdotes que eram ungidos com óleo santo, particularmente o sumo sacerdote (por exemplo, Lv 4.3,5,16). Os profetas são chamados hoi christoi theou, “os ungidos de Deus” (Sl 105.15). Um rei de Israel foi descrito em certa ocasião como christos tou kuriou, “o ungido do Senhor” (1 Sm 2.10,35; 2 Sm1.14; Sl 2.2; 18.50; Hc 3.13); o termo é usado até para se referir a Ciro (Is 45.1).
O título ho christos, “o Cristo”, não é usado acerca de Cristo na versão Septuaginta dos livros inspirados do Antigo Testamento [...] (2004, p. 522).

Contudo, na aplicação direcionada para o Novo Testamento, a palavra Cristo refere-se a Jesus. Ele é o Ungido por excelência. Cristo é o “Título oficial de Jesus. Conferido-lhe pelo mesmo Deus (At 1.16). [...] Evoca-lhe ainda o tríplice ofício: profeta, sacerdote e rei”. (ANDRADE, 2007, p. 122). Assim também descreve Boyer, numa breve citação: “Cristo, do gr., Ungido, e do heb., Messias: O Cristo quer dizer o Ungido”. (2006, p. 184).
Vine nos informa detalhes do comportamento do termo no contexto neotestamentário e segundo ele a palavra não é usada estritamente como título, porquanto diz:

[...] No Novo Testamento, a palavra é usada muitas vezes com o artigo, referindo-se ao Senhor Jesus, como apelativo em vez de título (Lc 2.11; 23.2; Jo 1.41). Três vezes o título foi expressamente aceito pelo próprio Senhor (Mt 16.17; Mc 14.61,62; Jo 4.26).
É acrescentado como apelativo ao nome próprio “Jesus” (por exemplo, Jo 17.3, a única vez que o Senhor assim se referiu a Si mesmo; At 9.34; 1 Co 3.11; 1 Jo 5.6). É distintamente um nome próprio em muitas passagens, quer com o artigo (por exemplo, Mt 1.17; 11.2; Rm 7.4; 9.5; 15.19; 1 Co 1.6), quer sem o artigo (Mc 9.41; Rm 6.4; 8.9,17; 1 Co 1.12; Gl 2.16). O título Christos é as vezes usado sem o artigo, e significa o Único que pelo Espírito Santo e poder habita nos crentes e molda o caráter deles de conformidade com a Sua semelhança [...] (2004, p. 522, grifo meu).

Desta forma, concluímos que a palavra Cristo, ficou bem delineada. Expressão do aramaico Mesiha, do heb. Masiah, do gr. Christós, do lat. Chistus, e traduzida na nossa língua como Messias. (COENEN; BROWN, 2000, p. 1079).

ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 16º edição, revista e ampliada. 2007. CPAD – RJ.
COENEN, Lothar. BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2º edição. 2000. Vida Nova – SP.
CHAMPLIN, Russell Norman. BENTES, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 4 M – O. 3º edição. 1995. Editora e Distribuidora Candeia – SP.
edição, 2004. CPAD – RJ.
VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; JR. Willian White. Dicionário Vine. 4º

domingo, 20 de junho de 2010

A MESOPOTÂMIA


Nenhum texto alternativo automático disponível.

Entre a Ásia, a África e Europa, uma região fertilizada pelas inundações periódicas de dois grandes rios atraiu muitos povos e os obrigou a desenvolver obras de engenharia. Para coordenar sua realização surgiu o Estado. Essa região foi chamada Mesopotâmia e dominada, sucessivamente pelos sumérios, acádios, amoritas, assírios e caldeus.
A economia da Mesopotâmia baseava-se principalmente da agricultura, mas os povos da região desenvolveram também a criação de gado, o artesanato, a mineração e um ativo comércio à base de trocas que se estendia à Ásia menor, ao Egito e à Índia.
Sua organização social formava uma pirâmide que tinha no topo os membros da família real, nobres, sacerdotes e militares. A base era composta por artesões, camponeses e escravos.
Famosos desde os tempos antigos pela crueldade e pelo talento guerreiro, os assírios também se destacaram pela habilidade na construção de grandes cidades e edifícios monumentais, como atestam as ruínas encontradas em Nínive, Assur e Nimrud. Estabelecido no norte da Mesopotâmia, o império assírio foi uma das civilizações mais importantes do Oriente Médio. Os primeiros povoadores conhecidos da região eram nômades semitas que começaram a levar vida sedentária ao longo do IV milênio a.C. Alguns dados atestam a formação, a partir do século XIX a.C., de um pequeno estado assírio, que mantinha relações comerciais com o império Hitita. No século XV a.C., depois de longo período de submissão ao império da Suméria, o estado assírio, com capital em Assur, começou a tornar-se independente e a se estender. Graças ao apogeu comercial, os assírios puderam lançar-se, sob o reinado de Shamshi-Adad I (1813-1781 a.C.), às conquistas que tanta glória lhes trouxeram. O soberano concentrou esforços na construção de um estado centralizado, segundo o modelo da poderosa Babilônia. Suas conquistas se estenderam aos vales médios do Tigre e do Eufrates e ao norte da Mesopotâmia, mas foram barradas em Alepo, na Síria. O rei Assur-Ubalit I (1365-1330) foi considerado pelos sucessores o fundador do império assírio, também conhecido como império médio. Para consolidar seu poder, estabeleceu relações com o Egito e interveio nos assuntos internos da Babilônia, casando sua filha com o rei desse estado. Depois de seu reinado, a Assíria atravessou uma fase de conflitos bélicos com hititas e babilônios, que se prolongou até o fim do século XIII a.C. Quem afinal conseguiu impor-se foi Salmanasar I (1274-1245), que devolveu ao estado assírio o poder perdido. Esse monarca estendeu sua influência até Urartu (Armênia), apoiado num exército eficaz que conseguiu arrebatar da Babilônia suas rotas e pontos comerciais. Sob o reinado de Tukulti-Ninurta I (1245-1208), o império médio alcançou seu máximo poderio. A mais importante façanha do período foi a incorporação da Babilônia, que ficou sob a administração de governadores dependentes do rei assírio. Com as conquistas, o império se estendeu da Síria ao golfo Pérsico. Depois da morte desse rei, o poder assírio decaiu em benefício da Babilônia. Assur-Nasirpal II (883-859), o mais desumano dos reis assírios, que pretendeu reconstruir o império de Tiglate-Pileser I e impôs sua autoridade com inusitada violência. Foi o primeiro rei assírio a utilizar carros de guerra e unidades de cavalaria combinadas com a infantaria. O último grande império assírio iniciou-se com Tiglate-Pileser III (746-727), que dominou definitivamente a Mesopotâmia. Sua ambição sem limites o levou a estender o império até o reino da Judéia, a Síria e o Urartu. Salmanasar IV e Salmanasar V mantiveram o poderio da Assíria, que anexou a região da Palestina durante o reinado de Sargão II (721-705). O filho deste, Senaqueribe (704-681), teve que enfrentar revoltas internas, principalmente na Babilônia, centro religioso do império que foi arrasado por suas tropas. Asaradão (680-669) reconstruiu a Babilônia e atacou o Egito, afinal conquistado por seu filho Assurbanipal (668-627). No ano 656, porém, o faraó Psamético I expulsou os assírios do Egito e Assurbanipal não quis reconquistar o país. Com esse soberano, a Assíria tornou-se o centro militar e cultural do mundo. Depois de sua morte, o império decaiu e nunca mais recuperou o esplendor. Fruto das múltiplas relações com outros povos, a civilização assíria alcançou elevado grau de desenvolvimento. Entre as preocupações científicas dos assírios destacou-se a astronomia: estabeleceram a posição dos planetas e das estrelas e estudaram a Lua e seus movimentos. Na matemática alcançaram alto nível de conhecimentos, comparável ao que posteriormente se verificaria na Grécia clássica. A religião assíria manteve as ancestrais tradições mesopotâmicas, embora tenha sofrido a introdução de novos deuses e mitos. A eterna rivalidade entre assírios e babilônios chegou à religião com a disputa pela preponderância de seus grandes deuses, o assírio Assur e o babilônio Marduk. O império assírio sucumbiu ao ataque combinado de medas e babilônios. Sob as ruínas de uma esplêndida civilização, ficou a trágica lembrança de suas impiedosas conquistas e da ilimitada ambição de seus reis.

Artigo extraído do:
SETEBRAE - SEMINÁRIO TEOLÓGICO DO BETEL-BRASILEIRO E AÇÃO EVANGÉLICA
GEOGRAFIA E ARQUEOLOGIA BÍBLICA - Prof. José Sanches Vallejo Neto

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O PENTATEUCO

Nome e divisões do Pentateuco

Pentateuco é o nome pelo qual, tradicionalmente, se conhece o grupo dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento. Trata-se de uma palavra de origem grega que pode ser traduzida por “cinco estojos”, fazendo referência aos estojos (caixas ou vasilhas) onde, na Antigüidade, se guardavam e protegiam da deterioração os rolos de papiro ou de pergaminho utilizados como material de escrita. Os judeus designam, por sua vez, esses livros com o título genérico de torah, termo hebraico que, apesar de ter sido traduzido de forma habitual por “lei”, na realidade, tem um significado mais amplo. Torah, de fato, inclui o conceito de “lei” e, até com maior propriedade, os de “guiar”, “dirigir”, “instruir” ou “ensinar” (cf. Dt 31.9).
O Pentateuco, ainda que se apresente dividido nos referidos cinco primeiros livros da Bíblia, constitui, na realidade, uma unidade essencial. A divisão corresponde a uma época já remota: encontra-se na tradução grega do Antigo Testamento, a chamada Septuaginta ou Versão dos Setenta, que data do séc. III a.C. (Ver a Introdução ao Antigo Testamento). A causa da separação dos livros foi a dificuldade de dispor o texto completo de todos eles em um único rolo, o que seria impraticável por causa do volume excessivo.
Os nomes de origem grega adotados pela Igreja cristã greco-latina como títulos desses cinco livros são os mesmos com que foram designados na Septuaginta. Correspondem respectivamente ao conteúdo de cada um dos textos e consideram cada caso ao destacar um determinado fato ou assunto; assim, Gênesis significa “origem”; Êxodo, “saída”; Levítico, “relativo aos levitas”; Números, “conta” ou “censo”; Deuteronômio, “segunda Lei”. Quanto à tradição hebraica, limita-se, em geral, à norma de intitular os livros com alguma das suas palavras iniciais: ao primeiro chama de Bereshit (no princípio); ao segundo, Shemoth (nomes); ao terceiro, Wayiqrá (e ele chamou); ao quarto, Bemidbar (no deserto) e, ao quinto, Debarim (palavras).

O Pentateuco e a história

Característica essencial do Pentateuco (ou Torah) é a alternância de seções narrativas com outras dedicadas a instruir o povo de Israel e a regulamentar a sua conduta, tanto na ordem ética pessoal e social como, muito especialmente, na religiosa.
Em uma primeira parte, que abarca todo o Gênesis e até o cap. 19 de Êxodo, predomina o gênero narrativo. Nessa seção, os relatos se enlaçam uns aos outros, somente interrompidos aqui e ali por algumas passagens de caráter normativo (p. ex., Gn 9.6; 17.9-14; Êx 12.1-20). De Êx 20 em diante prevalecem os textos destinados a estabelecer as normas e disposições nas quais Deus revela o que quer e espera do seu povo. Dessa maneira, desde o impressionante pano de fundo de uma epopéia que vai da criação do mundo à morte de Moisés (Dt 34.12), o Pentateuco mostra-se como o depósito da vontade de Deus manifestada na forma de ensinamentos, mandamentos e leis, cujo objetivo primordial é configurar um povo santo, que seja portador fiel perante o resto da humanidade da oferta divina de salvação universal.

Formação do Pentateuco

Uma obra complexa, extensa e de grande valor religioso e cultural como o Pentateuco manifesta uma série de particularidades estilísticas, literárias e temáticas que se deve levar em consideração ao se estudar o processo da sua formação.
Em primeiro lugar, há certos textos bíblicos que revelam a existência de fontes anteriores ao próprio Pentateuco, como, p. ex., o chamado Livro das Guerras do SENHOR, expressamente citado em Nm 21.14.
Em segundo lugar, achamo-nos diante de uma obra literária rica em conteúdo e complexa em composição, que freqüentemente deixa perceber o eco de diversas etapas e distintos narradores. Assim ocorre com as variantes registradas nos dois textos do Decálogo (Êx 20.1-17; Dt 5.1-21); ou com as quatro apresentações do catálogo de grandes festas religiosas israelitas (Êx 23; 34; Lv 23; Dt 16); ou com certas histórias, como a da despedida de Agar e Ismael (Gn 16; 21.8-21) ou com o ocultamento da condição de esposa nos casos de Sara e Rebeca (Gn 12.10-20; 20.1-18; 26.6-14). Cada uma dessas narrações oferece detalhes próprios, que a singularizam e a fazem aparecer como relato original e não como mera repetição de um texto paralelo.
Também com respeito ao vocabulário e estilo observam-se, no Pentateuco, numerosos matizes diferentes. Assim, p. ex., em Gênesis, que começa com uma dupla apresentação do relato da criação (1.1—3.24): enquanto que na primeira o Criador é chamado de Elohim (forma hebraica usual para designar Deus), na segunda é chamado de YHWH Elohim, expressão traduzida por “SENHOR Deus” na versão de João Ferreira de Almeida. A partir desses relatos e até o momento em que Deus se revela a Moisés no monte Horebe (Êx 3.1-15), a alternância dos nomes divinos mantém-se com relativa uniformidade.
Algumas passagens do Pentateuco caracterizam-se pelo seu frescor e espontaneidade (p. ex., Gn 18.1-15); outras, como acontece em Levítico, recorrem a uma linguagem jurídica de grande precisão, para tratar de temas legais ou relativos à pratica do culto de Israel; e ainda há outras (como Deuteronômio) que introduzem cálidos acentos, mesmo ao proclamar a Lei e ao exortar o povo a obedecer-lhe em devida resposta ao amor de Deus.
A análise dos indícios mencionados revela que o Pentateuco é o resultado de um processo lento e muito complexo, em cuja origem descobre-se a figura de Moisés, o grande libertador e legislador que, com a sua personalidade, marcou o espírito e a história do povo de Israel; um processo que se encerra com a coleção formada pelos cinco primeiros livros da Bíblia.
Na formação do Pentateuco há um importante trabalho inspirado, que compila, ordena e redige narrações, séries genealógicas e conjuntos de leis que, durante séculos, haviam sido transmitidas oralmente de uma geração para outra. Nele está contida a herança espiritual que Moisés legou ao povo de Israel, uma herança viva, fielmente transmitida e enriquecida com o passar dos séculos.
Os principais temas e as seções correspondentes do Pentateuco podem ser analisados segundo o esquema seguinte:

1. Desde a criação do mundo até a genealogia de Abraão (Gn 1—11).
2. A história dos Patriarcas (Gn 12—50).
3. A saída do Egito (Êx 1—15).
4. Desde o Egito até o Sinai (Êx 16—18).
5. A revelação do SENHOR no Sinai (Êx 19—Nm 10).
6. Desde o Sinai até Moabe (Nm 10—36).
7. O livro de Deuteronômio (Dt 1—34).

Extraído da Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada
© 1999 Sociedade Bíblica do Brasil.
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