domingo, 20 de agosto de 2017

A MANIFESTAÇÃO DOS OFÍCIOS EM JESUS - (REI) - Por André Rodrigues

A monarquia no Antigo Testamento

Sabe-se que todas as antigas nações registradas nas Escrituras possuíam um representante legal instituído[1], ou seja, um homem escolhido para arcar com a função de estar à frente de seu povo. Tal indivíduo, por sua vez, é conhecido comumente pelo substantivo rei. Esse substantivo, derivado do heb. melek, aparece, segundo Vine, 2.513 vezes no Antigo Testamento (2004, p. 258). Champlin (1995, vol. V, p. 617) ressalta que essas ocorrências vão desde Gn 14.1 até Dn 7.24. Já a expressão no grego é basiléus[2], “termo que aparece por cento e onze vezes. Se considerarmos seus cognatos, como “rainha”, “reinar”, e “reino”, então esse número aumentará para mais de trezentas vezes”. O rei era o representante maior da nação nas questões relacionadas ao social e não incomum às questões espirituais. Essas referências podem ser observadas principalmente nas nações pagãs[3], nas quais a relação entre governantes e a divindade era íntima. “No Egito, a tendência era que o faraó ou rei recebesse a posição equivalente a de um deus; na Assíria, o rei era antes o representante do deus” (DOUGLAS, 2006, p. 1146), desta forma, exercia a função de profeta, que, como observamos noutro lugar, era o legal representante da Divindade na Terra.
[...] a linhagem real dominante em países de mais elevada civilização, com freqüência era identificada com alguma divindade, ou mesmo com vários deuses. Esse era um corolário natural do conceito de que os deuses eram os protetores destes ou daquele povo. O rei, por ser a principal autoridade de uma nação, torna-se a encarnação da proteção daquela divindade. [...] os anais dos povos gentílicos nos fornecem uma visão imanente do poder divino, onde homens e deuses misturam-se livremente. O rei, pois, era aquele que desfrutava de contacto mais íntimo e constante com os deuses. [...] Através dos longos séculos da história egípcia, e também com freqüência na da Mesopotâmia, os deuses eram considerados uma espécie de alta realeza que governava os homens, e os reis e os sacerdotes, eram tidos como seus representantes especiais. Também devemos pensar nos homens que, de algum modo, eram considerados descendentes dos deuses, de onde, supostamente, derivava-se o seu poder. [...] Faraó, do Egito, era tido como uma espécie de encarnação do deus Horus; pelo que todos os Faraós, em seus títulos, tinham alguma referência a essa divindade. Além disso, vários epítetos de divindades mesopotâmicas são os mesmos adotados pelos reis humanos (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 618).

Esses diversos reis nem sempre eram responsáveis por grandes áreas. Champlin diz que, às vezes, os governantes locais eram chamados de “rei”[4] (1995, vol. 5, p. 617). A Escritura faz menção a um homem por nome de Ninrode, que aparece como sendo o primeiro homem da história a ser chamados rei (Gn 10.8-12) e detentor de um reino[5] com diversas cidades[6] erguidas por ele próprio. No versículo nove, do referido livro do Gênesis, Ninrode é apresentado como “poderoso caçador[7] diante da face do Senhor” (ARC). Mais adiante, quando a expressão hebraica melek, ou seja, rei, aparece literalmente (Gn 14.1), faz-se menção à história de uma guerra de quatro reis contra cinco, no Vale de Sidim, região sul do Mar Morto. Harmonizando-se com a citação de Champlin quanto às pequenas áreas governadas por esses reis, Halley explica:
Os exércitos da época eram pequenos, e os “reis” eram, na realidade, príncipes tribais. [...] Os reis mencionados em Gênesis 14 aparecem somente no texto bíblico. (A conjecturada identificação entre o Anrafel da Bíblia e o rei Hamurábi da Babilônia não é muito plausível). Sabe-se, segundo os documentos da escrita cuneiforme descobertos em Mari e em outros lugares, que no período patriarcal os reis muitas vezes faziam alianças para guerrear contra outros reis – situação que se vê refletida em Gênesis 14 (2001, p. 92).  
Além dos reis acima citados, outros são mencionados nas Escrituras neste contexto: os pagãos do Egito (Intitulados Faraós), os da Pérsia, os de Edom, os de Canaã, etc. (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 617). Isso ilustra muito bem o argumento de que todas as nações da antiguidade possuíam seus reis, regentes de cada povo respectivamente. Mais tarde, numa situação um tanto conturbada, surge, em Israel, o estabelecimento do ofício real, tendo Saul como o primeiro rei institucional da nação. 
A controversa instituição do ofício real na nação judaica, renegando-se ao governo teocrático, será nosso próximo assunto.

A controversa instituição do ofício régio em Israel

Como registramos acima, todas as antigas civilizações possuíam representantes legais instituídos na sua esfera política. Israel, não! Essa complexa situação pode ser explicada largamente com textos das Escrituras, que afirmam ser Deus o verdadeiro representante régio da nação judaica. No canto de Moisés, por exemplo, após a vitória sobre os egípcios submersos pelo mar[8], diz-se: “O SENHOR reinará eterna e perpetuamente” (Êx 15.18, ARC). Em outro lugar diz-se que se o povo obedecesse a Deus, dando ouvidos a Sua voz e guardando os Seus mandamentos, seriam Seu “reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19.6, ARA, grifo nosso). Para que haja um reino, é necessário haver um Rei. A nação de Israel era regida por Deus, caracterizando, assim, um governo teocrático[9][10], ou seja, um domínio exercido pelo próprio Deus. “O trecho de Isaías 33.22 afirma enfaticamente o princípio envolvido: “Porque o Senhor é o nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso rei: Ele nos salvará” (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 618). Ademais, num sentido organizacional, havia representantes nas primitivas tribos judaicas. Douglas explica que:

Na história de Israel, as primitivas tribos nômades eram governadas pelo patriarca do clã. Durante o êxodo do Egito, o governo foi exercido por Moisés, sucedido posteriormente por Josué, naquilo que era praticamente uma teocracia, na qual o líder não-hereditário era eleito pela chamada divina e reconhecido pelo povo, ainda que não sem certo protesto (Êx 4.29s.; Nm 16.1s.). Quando Israel se estabeleceu na Palestina,[11] inicialmente, as tribos eram governadas principalmente pelos anciãos das vilas (Jz 11.5), os quais podiam convocar algum homem de sua escolha para comandar a milícia contra o inimigo (Et All, 2006, p. 1146).
Ratificando a citação acima, Champlin (1995, vol. V, p. 618) expõe que “na antiga nação de Israel, a autoridade era exercida, essencialmente através de chefes de aldeias [...], quando necessário, esses chefes podiam convocar um exército de emergência (Jz 11.9)”.  Essa complexa configuração governamental, regida por chefes de aldeias, não era muito conveniente: “Depois da morte de Josué, a nação hebraica não tinha um governo central forte” (HALLEY, 2001, p. 162). Tal situação conturbada apenas foi reestruturada, mais tarde, com a literal instituição do ofício régio em Israel.
Quanto à falta de estrutura existente nesse sistema de governo, Halley explica:
[...] Tratava-se de uma confederação de doze tribos independentes, destituídas de qualquer elemento de unificação, a não ser o próprio Deus. A forma de governo nos dias dos juízes[12] (libertadores) era aquela que se chama “teocracia”, ou seja, considerava-se que o próprio Deus era o governante direto da nação. Entretanto, o povo não levava muito a sério o seu Deus – os israelitas recaíam continuamente na idolatria. Vivendo numa condição de anarquia mais grave ou menos grave, afligidos ocasionalmente por guerras civis entre si mesmos e cercados por inimigos que faziam repetidas tentativas de exterminá-los, os hebreus tiveram um desenvolvimento nacional muito lento. Os israelitas não se tornaram uma grande nação a não ser quando foram organizados em um reino nos dias de Samuel e de Davi (2001, p. 162).   
“Após o desaparecimento dos fortes líderes, como Moisés e Josué, os chefes de aldeias nunca foram suficientemente importantes para impedir o caos” (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 619). Nesse contexto, ocorre exatamente a triste expressão máxima: “Naqueles dias, não havia rei em Israel, porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Jz 21.25, ARC, grifo nosso). Entretanto, um pouco mais à frente, embora nesse mesmo contexto, encontramos dois personagens que conseguiram desenvolver uma liderança diferenciada, mesmo com todos os problemas decorrentes daqueles dias: Eli e Samuel. Acerca deles, Champlin nos informa:
Esses dois homens proveram uma forte liderança. Eli era o sacerdote principal[13] em Siló (I Sam. 1:3; 4:13). Samuel tinha uma liderança não hereditária. Ele governava de diversos lugares em Israel, em seus circuitos pela nação (I Sam. 7:15ss) (1995, vol. V, p. 619).     
Contudo, depois de certa calmaria na nação liderada interinamente por Samuel, surge, entre os judeus, um saliente pedido: a instituição de um rei, como havia em todas as outras nações. Sem dúvida, isso arruinou o coração de Samuel, que entendeu a premente petição como a rejeição da teocracia até então fixada. O texto sagrado nos informa:

E sucedeu que, tendo Samuel envelhecido, constituiu a seus filhos por juízes sobre Israel. E era o nome do seu filho primogênito Joel, e o nome do seu segundo, Abias; e foram juízes em Berseba. Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinavam à avareza, e tomaram presentes e perverteram o juízo. Então, os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos pois, agora, um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações (I Sm 8.1-5, ARC).
Essas palavras soaram mal aos ouvidos de Samuel, que tinha zelo excessivo pela nação e, consequentemente, zelo para com o Deus da nação. No entanto, “o pedido provavelmente foi feito em vista da contínua ameaça dos filisteus, que tornava necessária a existência de um exército permanente”[14](DOUGLAS, Et All, 2006, p. 1146). Acerca da receptividade dessa petição por parte dos anciãos representantes do povo, o autor comenta:

O descontentamento de Samuel não ocorreu porque o povo julgou que ele estava velho e que os seus filhos não eram dignos de sucedê-lo, mas porque pediram um rei – fato no qual ele via claramente implicações profundas com envolvimentos morais e espirituais. Os seus receios se confirmaram quando o Senhor lhe disse: o povo não te tem rejeitado a ti; antes, a mim me tem rejeitado, para eu não reinar sobre ele. A nação já tinha uma triste história de rebelião e idolatria, e estava, agora, apenas fazendo a Samuel o que já havia feito ao Senhor. Esperava-se que o profeta concordasse com o pedido, mas ele protestou e claramente informou os líderes do resultado de sua escolha (MULDER, Et All, vol. 2, p. 193, grifo do autor).
Foi nessas circunstâncias que se estabeleceu o ofício real em Israel, tendo Saul como seu primeiro rei. Ele “pertencia à tribo de Benjamim [...] alto, de boa aparência e humilde, [...] começou seu reinado com uma vitória brilhante sobre os amonitas[15]. Desapareceram, então, quaisquer dúvidas a respeito da nova monarquia” (HALLEY, 2006, p. 181). Mesmo com a instituição de um rei em Israel, “durante o seu reinado, [...] Samuel, enquanto viveu, preservou a liderança religiosa” (DOUGLAS, Et All, 2006, p. 1146). E Saul se consolidou como o representante da nação.

O rei Saul obteve poderes consideráveis, em pouco tempo. Ele tinha a última palavra na administração da justiça e da política interna (II Sam. 15:2; I Rs 3:16). Exercia o poder de vida e morte sobre os cidadãos (II Sam.14). Chegou a imiscuir-se em assuntos religiosos (I Rs 8 e II Rs 12.14; 18:4; 23.1). Era o comandante-em-chefe do exército. E essa era a principal razão pela qual os israelitas queriam ter um rei; porque temiam os muitos inimigos que viviam ameaçando Israel por todos os lados (I Sam 8.20) (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 619).
Porém, a história registra que esse aspecto vitorioso do rei Saul não perdurou por muito tempo. Ele se envaideceu e pôs abaixo seu reinado, dando lugar a outro[16] que conseguiria estabelecer uma dinastia preeminente e um relevante respeito em todos os tempos, e, sem exagero, tornar seu reino eterno, figura tipológica do Reino do Messias. Halley expõe, de modo condensado, pelo menos três principais erros cometidos pelo primeiro rei de Israel:

O primeiro erro de Saul (cap. 13). Seus sucessos deixaram-no envaidecido em pouco tempo. A humildade foi substituída pela soberba. Ele ofereceu sacrifícios, que era função exclusiva dos sacerdotes. [...] O segundo erro de Saul (cap. 14). A ordem impensada que impôs ao exército para que se abstivesse de alimentos e a sentença de morte, igualmente impensada, que decretou contra Jônatas mostravam ao povo que grande tolo os israelitas tinham como rei. O terceiro erro de Saul (cap. 15). Dessa vez, Saul desobedeceu deliberadamente a Deus. Por causa disso, teve de ouvir a sentença ameaçadora de Samuel: “Assim como você rejeitou a palavra do Senhor, ele o rejeitou como rei” (2001, p. 181, grifos do autor).
Imaturamente, Saul deixa escapar a oportunidade concedida por Deus de ser um rei que tornasse diferente a história da nação de Israel. Foi tirado do trono, e Davi reinou em seu lugar. Este é considerado o maior rei da história israelita, lembrado até os dias de hoje. É sobre Davi que trataremos no seguinte tópico.    

Davi, o maior rei da história de Israel

Depois da inevitável queda de Saul, Davi é escolhido por Deus para assumir o reinado na nação judaica. Inicialmente, sua escolha e também sua unção ocorrera de modo oculto[17], para não haver represálias por parte de Saul. “A unção não podia ter sido realizada abertamente, pois nesse caso Saul teria matado Davi” (HALLEY, 2001, p. 181). Logo após Samuel ungir Davi, conforme o mandado do Senhor, as Escrituras retratam que “desde aquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apoderou de Davi” (I Sm 16.13). Mulder (2009, vol. 2, p. 208) ressalta que isso foi possível, unicamente, com a finalidade de “dotá-lo com sabedoria e poder”, e para que servisse de “orientação para o cumprimento dos propósitos de Deus para a sua vida”. Num pequeno trecho do livro de Atos, Lucas detalha as palavras de Paulo no discurso aos judeus, na sinagoga de Antioquia da Pisídia[18], dizendo:
O Deus deste povo de Israel escolheu a nossos pais e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egito; e com braço poderoso o tirou dela; e suportou os seus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos. E, destruindo a sete nações na terra de Canaã, deu-lhes por sorte a terra deles. E, depois disto, por quase quatrocentos anos, lhes deu juízes, até ao profeta Samuel. E, depois, pediram um rei, e Deus lhes deu, por quarenta anos, a Saul, filho de Quis, varão da tribo de Benjamim. E, quando este foi retirado, lhes levantou como rei a Davi, ao qual também deu testemunho e disse: Achei a Davi, filho de Jessé[19], varão conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade (At 13.17-22, ARC, grifo meu).   
Dessa forma, ficamos sabendo que Davi era varão segundo o coração de Deus. Soares declara que “isso significa ser ele um homem que se conduzia de acordo com a vontade de Deus, seus desejos e propósitos eram afinados com os de Deus”. O autor diz ainda que “a história de Davi ocupa mais espaço do que qualquer outro personagem do Antigo Testamento”. Sem exagero, a figura grandiosa do rei Davi é particular em Israel. O referido autor conclui: “ele reinou sete anos em Judá e 33 anos em todo o Israel, num total de quarenta anos[20]. Começou a reinar aos 30 anos de idade (2Sm 54.5). Fundou uma dinastia que durou 425 anos. Poucas famílias na história conseguiram tal proeza” (2008, p. 122). 
Segundo Champlin:
Davi era espiritualmente superior a Saul (I Sam. 13:14; I Reis 11:4; 14:8). O governo[21] de Davi foi muito bem-sucedido, dos ângulos, pessoal, militar e religioso, de tal modo que Davi chegou a ser considerado o monarca ideal[22] (1995, vol. V, p. 619). 
Esse diferencial que havia em Davi fez com que Deus estabelecesse com ele um eterno pacto, do qual descenderia Jesus, o Messias. “A graciosa aliança de Deus com Davi prometia que o direito de governar permaneceria para sempre[23] com a dinastia de Davi” (RYRIE, 2004, p. 296).
A primeira promessa feita a Davi é uma fundação de uma dinastia davídica: “O SENHOR te fará saber que o SENHOR te fará casa” (v 11), depois de sua morte ela continuaria[24]: “estabelecerei o seu reino” (v. 12). A palavra profética revela a relação pai-filho e a continuidade da casa davídica, que não será quebrada como foi a casa de Saul, ainda que esse filho venha pecar, será castigado, mas “benignidade não se apartará dele” (v.v 14.15[25])  (SOARES, 2008, p. 124).
Dentro dessa linha, outro autor fortalece a argumentação:
O pacto davídico (Sl 132:11ss)[26], sem dúvida, foi um fator essencial na importância dele, visto que tornava-se clara a existência de um propósito divino, operante através da linhagem de Davi. Esse propósito era surgimento do Messias, Jesus Cristo. Davi tornou-se uma espécie de rei-sacerdote[27], tendo restaurado, até certo ponto, o ideal mosaico (II Sam. 6:13 ss) (CHAMPLIN, 1995, Vol.V, p. 619).
Portanto, percebe-se quão importante foi Davi na história. Respeitado como o maior de todos os reis[28] de Israel. Um dos principais tipos de Jesus e detentor de uma soberania familiar proposta por Deus para a elevação do Messias, que seria considerado, por sua vez, o Eterno descendente de Davi. 


Jesus, O Eterno Descendente de Davi    


Depois de tecermos comentários sobre os ofícios de Jesus como Profeta e Perfeito Sumo Sacerdote, falaremos, agora, sobre Seu ofício de Rei, o terceiro do tríplice ofício. Partiremos do pressuposto de sua atuação como Rei nos Evangelhos sinópticos, na implantação deste reino no início do Seu ministério, como também dos aspectos característicos dessa atuação durante Seu estado de humilhação, após a ascensão e, por último, no futuro reinado do Milênio[29]

Como foi possível observar, havia diversas promessas[30] que diziam respeito a um Rei, descendente da casa de Davi, que reinaria eternamente. Severa (1999, p. 241) cita que “os profetas do Antigo Testamento falaram de um rei que viria da casa de Davi, para governar Israel e as nações, com justiça, paz e prosperidade (Is 11.1-9)”. Este Rei é Jesus[31]. Uma dessas muitas promessas é relatada pelo profeta Isaías:

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; para que aumente o seu governo, e venha paz sem fim, sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto[32] (9.6,7, ARA, grifos meu).

Havia, no Novo Testamento, uma expectativa do advento desse Reino. Os judeus conheciam bem as profecias e esperavam ansiosos por um reino terreno político, com a esperança de poderem viver em constante gozo num perfeito reino prometido por Deus, em contraste com a forma que viviam naqueles dias,  subjugados pelos romanos e desgastados por reinos imperiais de outrora. Geisler corrobora, dizendo:

O Novo Testamento contém esta mesma expectativa messiânica do Antigo Testamento de um reino terreno político literal que cumpra todas as profecias a seu respeito. Por exemplo, José de Arimatéia estava esperando o auge deste reino (Mc 15.43; Lc 23.51), e Jesus disse que João Batista morreu antes de se tornar parte dele (7.28; cf. 16.16[33]) (2010, vol. 4, p. 880). Mesmo com a expectativa da chegada do referido Reino, os judeus, em sua maioria, nos dias de Jesus, não deram crédito as Suas palavras. Ainda hoje esperam o advento do Messias. Não conseguiram perceber que Seu Rei estava diante deles. É-nos dito, entretanto, que logo no início de seu ministério, após a prisão de seu precursor, João Batista, “Jesus seguiu para a região da Galiléia e ali anunciava a boa notícia que vem de Deus. Ele dizia: - Chegou a hora, e o Reino de Deus[34] está perto[35]” (Mc 1.14,15, NTLH). Assim, de acordo com Letham (2007, p. 56), Marcos assinala, na verdade, “a primeira proclamação de seu ministério”. Dessa forma, esse registro retrata a inauguração desse Reino.

[...] o reino de Deus era um tema muito importante para Jesus. Esse foi o coração da instrução pós-ressurreição que ele deu aos seus discípulos (At 1.3). Não que isso fosse algo extraordinariamente novo. Além do mais, quando Jesus começou seu ministério, ele o fez com a simples declaração da proximidade do reino de Deus. Tal mensagem pressupôs um entendimento do reino de Deus e de sua natureza. A coisa mais surpreendente sobre isso foi que o reino estava próximo e isso exigia arrependimento imediato de Israel. Esse tema estava presente, em certo sentido, no entendimento de Israel à época de Jesus. O contexto desse entendimento, muito provavelmente encontrava-se no próprio Antigo Testamento. Lembremo-nos da visão de Daniel sobre a sucessiva derrota de reinos[36] humanos causado por uma pedra cortada sem o auxílio de mãos e que por sua vez tornou-se um reino que permanece para sempre (Dn 2. 31-45). Outra visão de Daniel é sobre o domínio eterno dado ao Filho do Homem (Dn 7.9-14). Ambas as visões referiam-se a circunstâncias futuras em relação aos dias de Daniel. Novamente uma expectativa vibrante desenvolveu-se no Antigo Testamento de que o próprio Yahweh viria para libertar o seu povo. Jesus estava, de fato, dizendo a Israel que esse tempo havia chegado (LETHAM, 2007, p. 56).

Após o estabelecimento inicial de seu ministério, Jesus faz a convocação de doze homens, os quais iriam compor o colégio apostólico[37], cobre-lhes de instruções diversas, mostrando a natureza desse Reino[38], atrai para Si inúmeros outros discípulos, prega, cura, realiza milagres, alimenta multidões, quebra grilhões de endemoniados etc. Esses exemplos são encontrados em escala abundante nos quatro Evangelhos. Contudo, seu ministério não é duradouro[39]. Chega o tempo de Sua partida, afinal foi para isto que veio: morrer pela humanidade! Dessa forma:

[...] Na presença de Pilatos[40], testificou que nasceu para ser rei[41]; explicou que seu reino não era deste mundo, isto é, não seria um reino fundado por força humana, nem seria governado de acordo com os ideais humanos (Jo 18.36). Jesus, antes de sua morte, predisse sua vinda com poder e majestade para julgar as nações (Mt 25.31) (PEARLMAN, 2006, p. 172, 173).

De maneira teológica e sistemática, Mueller destaca características do ofício régio de Jesus nas proximidades de sua morte vicária, corroborando a última citação de Pearlman:
Também em seu estado de humilhação, Cristo foi verdadeiro rei, que possuía e exercia o poder divino, não apenas segundo a sua natureza divina (de modo essencial), mas também segundo a sua natureza humana (por comunicação), [...] a Escritura atribui governo a Cristo encarnado (Is 9.6); realeza (Jo 18.37); poder divino (Mt 28.18), etc. [...] Todavia, nosso Salvador não exerceu o emprego perfeito e constante do domínio divino comunicado à natureza humana até a sua exaltação à direita de Deus. (Ef 1.20-23; 4.10; Fp 2.9-11[42]) (2004, p. 306, grifo nosso).

Com efeito, depois de Sua morte e ressurreição, recebeu do Pai a soberana exaltação e coroação de honra e glória, a restauração daquela glorificação que tinha antes da existência do mundo (Jo 17.5); foi feito Senhor e Cristo (At 2.36), Príncipe e Salvador (At 5.31), Juíz dos vivos e dos mortos (At 10.42); assentou-se à direita de Deus nos céus (Ef 1.10), tudo lhe foi entregue em suas mãos (Jo 3.35) e, por último, tornou-se o detentor de todo o poder no céu e na terra (Mt 28.18), (BERGSTÉN, 1999, p. 63). Segundo Hodge (2001, p. 931), “Cristo possui o que os teólogos costumam chamar de seu reino de poder[43]. Como Teantropo[44] e Mediador, foi entregue em sua mão todo o poder [...]”.

Outro ponto a considerar é acentuado por Berkhof (2004, p. 375) quando diz que, “na qualidade de Segunda Pessoa da Trindade[45] Santa, o Filho eterno, Cristo naturalmente compartilha o domínio de Deus sobre todas as Suas criaturas [...] (Sl 103.19)”. Assim, Cristo, cheio de poder e considerado como o “REI DOS REIS e SENHOR DOS SENHORES” (Ap 19.16), está preparado para implantar, literalmente, o Seu Reino. “Porém, a plenitude desse ministério Jesus mostrará quando voltar ao mundo como Rei, para restaurar tudo que os profetas têm predito (cf. At 3.21)”. De acordo com Grudem (1999, p. 527), será de fato percebida essa autoridade sobre a Igreja e também sobre todo o universo “quando Jesus voltar à terra com poder e grande glória para reinar (Mt 26.64; 2Ts 1.7-10; Ap 19.11-16)”. Na oportunidade, “todo joelho se dobrará diante dele (Fp 2.10)[46]”. Posteriormente, virá a implantação do perfeito[47] reino Milenial: “Quando Cristo retornar, ele punirá o diabo e seus emissários e aprisionará Satanás (Ap 19.17-21; 20.1-6), e então reinará no Monte Sião (Jerusalém)”, (GEISLER, 2010, vol. 4, p. 949, grifo nosso). Andrade reúne informações de como será o Milênio e o perfeito reinado de Cristo:

O Milênio terá início após a Grande Tribulação[48], entende-se claramente que será na terra, de acordo com as profecias, Jerusalém será a capital do Reino (Is 2.2,3; 60.1-3; 66.20; Mq 4.8-13). Cristo reinará, na Jerusalém terrena, haverá dois tipos distintos de residentes: os salvos, ou seja, a Igreja glorificada e os povos naturais. Os salvos transformados não estarão restritos unicamente a Jerusalém terrestre, uma vez que, o seu estado é de corpo glorificado. Os judeus salvos, os gentios absorvidos no julgamento das Nações, todos os sobreviventes da Grande Tribulação, além do povo nascido durante os mil anos, também estarão no milênio. Nestes, mil anos, o mundo realmente saberá o que significa a expressão “Paraíso na Terra”. Será mantido o livre-arbítrio, ou seja, as nações que participarem do milênio terão o direito de escolher se querem adorar ao Senhor ou não, com isso, haverá rebeldes[49], e assim significa dizer que o pecado não será totalmente aniquilado neste período. Com este direito de escolha, conclui-se que haverá naqueles dias, salvação em massa (Is 33.6; 62.1; Zc 8.13) (2009, pp. 539-543).

Concluímos, portanto, que Cristo, no Milênio, implantará definitivamente Seu Reino, agora só percebido parcialmente. Naqueles dias, será possível serem observados critérios de governo e liderança diferentes dos atuais, porque Cristo, sendo perfeito, reinará perfeitamente. Então se cumprirá, de uma vez por todas, essa gloriosa atuação do Eterno Descendente de Davi.



Artigo extraído de: RODRIGUES, André. O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei. 2011, Editora Nossa Livraria - PE

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[1] De acordo com Douglas este ofício era comum no Oriente Médio (2006, p. 1146).

[2] O termo basiléus ocorre de Mateus 1.6 até Apocalipse 21.24 (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 617).

[3] Relativo a “paganismo”. Andrade define como sendo um sistema religioso que não reconhece a supremacia de Deus, aceitando como real a existência e a interferência de outros deuses nas relações humanas (2007, p. 290). 

[4] Isso é provado pelo fato de que Bem-Hadade tinha autoridade sobre trinta e dois reis (I Reis 20:1, 16). Em Caná, Adoni-Bezeque derrotou setenta reis, tendo-os obrigado a comer pão debaixo de sua mesa (Juí. 1:7) (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 617).

[5] Mamlãkãh, “reino”, “soberania”, “domínio”, “reinado”. A primeira ocorrência deste termo é exatamente em  Gn 10.10, ao citar o reino de Ninrode (VINE, 2004, p. 256).

[6] As respectivas cidades são: Babel; Ereque; Acade; Calné; Nínive; Reobote-Ir; Calá e Resém.

[7] O caçador está em contraste com a palavra semítica comum “pastor”, que designa um regente que tem no coração o bem-estar das pessoas. O reino de Ninrode se estendeu até ao rio Tigre, onde foi construído o último centro do poder assírio, formado por Nínive, Reibote-Ir e Resém. É interessante que o nome atual das ruínas de Calá seja Ninrode (LIVINGSTON, Et All, 2009, vol. 1, p. 54, grifos do autor).

[8] Cf. Êx 14.27-31.

[9] Teocracia – Esse vocábulo, que não ocorre na Bíblia, originou-se, ao que parece, com o historiador Josefo, quando escreveu: “O nosso Legislador deu-nos um governo que podemos denominar de teocracia, atribuindo o poder e a autoridade a Deus”. Essa relação de Deus com seu povo se vê em Êx 25.22; Jz 8.23; 1Sm 12.12; 2Cr.8; 2Sm 7.1-17; Sl 89.27; Dt 17.14-20 (BOYER, 2006, p. 637). 

[10] Outro ponto a considerar, citado por Geisler (2010, vol. 4, p. 870) é que quando Deus ratificou o concerto mosaico com seu povo, Ele disse: “ Vós me sereis reino sacerdotal e povo santo”. Isso registra o estabelecimento de uma teocracia; Israel aceitou o papel de ser governada diretamente por Deus. Eles eram o reino de Deus na terra, e Ele era o seu Rei. Em termos técnicos, explica Andrade, a definição deste termo no gr. Theos, Deus + kratia, é: governo. Explica ainda que este governo era centrado nas leis de Deus e exercido por sacerdotes. No Antigo Testamento, esta configuração governamental teve um apogeu na judicatura de Samuel, que tinha atuação de profeta, sacerdote e também chefe de Estado (2007, p. 339). 

[11] Boyer (2006, p. 489) diz que a palavra Palestina quer dizer: A terra dos Filisteus. Chamava-se, também, A terra de Canaã, A terra de Israel, A terra prometida, A terra santa. Em todo o mundo, a Palestina é considerada a pátria dos israelitas e dos judeus. 

[12] Os juízes foram 13 homens que o Senhor suscitou para libertar o povo durante a decadência e desunião que se seguiram à morte de Josué. A ira de Deus se ascendia contra Israel por causa da apostasia e imoralidade (BOYER, 2006, p. 383). É incerta a duração do período dos juízes. Ao somarmos todos os anos de opressão e dos juízes individuais, bem como os dos períodos de descanso, chegaríamos ao total de 410 anos (HALLEY, 2006, p. 162).

[13] Eli (uma contração de “Deus é grande”) era um sumo sacerdote. Entre os outros sacerdotes estavam os seus dois filhos, Hofni e Finéias, notáveis por sua corrupção e incredulidade (2.12-17, 23.25; 3.13). Como era hereditário, o sacerdócio passava do pai para os filhos sem consideração pelo caráter ou falta do mesmo (MULDER, Et All, vol. 2, p. 180, grifos do autor). 

[14] Cf. I Sm 8.20.

[15] Cf. I Sm 11.

[16] Davi, do heb., Amado. O segundo e o mais ilustre dos reis de Israel, conhecido como “o homem segundo o coração de Deus” (BOYER, 2006, p. 192). Davi era de baixa estatura, de tez clara, de belo aspecto, de grande força física e de muitos atrativos pessoais, homem de guerra, prudente no falar, muito corajoso, bom músico e bastante religioso (HALLEY, 2001, p. 181).

[17] Cf. ISm 16.1-13. 

[18] Uma das 16 cidades fundadas por Seleuco Nicanor e denominada de Antioquia (pertencente a Antíoco) em honra a seu pai. Situava-se na Frígia, quase nos limites da Pisídia. Havia uma colônia de judeus nesta cidade (At 13.14), (BOYER, 2006, p. 67).

[19] Um homem Efrateu, de Belém de Judá (Cf. I Sm 17.12). Quanto a sua mãe, Soares diz que parece que se chamava Naás, mãe de Zeruia e Abigail, irmãs de Davi (2 Sm 17.25) (2008, p. 122). 

[20] Depois de toda esta façanha, morreu aos setenta anos de idade (HALLEY, 2001, p. 186).

[21] Halley explica que pouco depois te tornar-se rei sobre todo o Israel, Davi fez de Jerusalém a sua capital. Situada numa posição inexpugnável, com vales em três lados, e tendo a tradição de Melquisedeque, o sacerdote do Deus Altíssimo [...], Davi resolveu fazer dela a capital de sua nação. Capturou a cidade, introduziu nela a arca e planejou o Templo [...], que seria construído por Salomão, seu filho (2001, p. 186).  

[22] Mesmo considerado como o monarca ideal, Davi cometeu alguns erros. O maior de todos parece ter sido o envolvimento adúltero com Bate-Seba e a morte provocada do marido dela, Urias (CHAMPLIN, 1995, VOL. V,
p. 619). Essa foi a mancha mais hedionda na vida de Davi: adultério mais a instigação ao assassinato com o propósito de encobrir o adultério. [...] Davi colheu exatamente o que semeara, e ainda com sobras – uma colheita prolongada, dura e amarga. Tamar, filha de Davi, foi violentada pelo irmão dela, Amnom, que por sua vez, foi assassinado por Absalão, irmão dos dois. Absalão desencadeou uma rebelião contra seu pai Davi e foi morto na luta. As mulheres de Davi foram violadas em público, assim como ele mesmo, às ocultas, violara a esposa de Urias (HALLEY, 2001, p. 187).

[23] Davi havia estabelecido uma dinastia que durou 400 anos, até a perda da liberdade nacional em 587 a. C. (DOUGLAS, Et All, 2006, p. 1146). Ryrie, corroborando Douglas, afirma que isso não incluía uma promessa de governo ininterrupto, pois, na realidade, o cativeiro babilônico acabou por interrompê-lo.

[24] Keil & Delitzch dizem: “A promessa conseqüentemente se refere à posteridade de Davi, começando com Salomão e terminando com Cristo”. E concluem: “O próprio Espírito Santo, ao longo da história do Antigo Testamento, encarregou-se de revelar o caráter messiânico dessa promessa, pois diz respeito ao Messias, de modo que o hebreu daquela época esperava o Messias descendente de Davi” (apud, SOARES, 2008, p. 124).

[25] Os versículos desta citação estão inseridos no cap. 7 de 2 Sanuel.

[26] A promessa a Davi de posteridade sobre o seu trono, junto com a referência ao ungido (meshiach, Messias, ou em gr., Christos), é citada por Pedro no sermão no dia de Pentecostes (At 2.30). As promessas da perpetuidade do trono de Davi, encontradas no AT, são cumpridas em Cristo. Essas promessas estão condicionadas à obediência – a obediência pelos descendentes literais de Davi em primeira instância e pela Igreja em segundo plano (CHAPMAN, Et All, vol. 3, p.312, grifos do autor). 

[27] Cf. II Sm 6.17,18.

[28] Depois da morte de Davi, Salomão seu filho reinou em seu lugar. A história do reinado de Salomão é registrada em I Reis nos cap. 3 – 11.  A partir de I Reis 12 até II Reis 25, é contada a história dos Reis de Israel e Judá (ALEXANDER, 2008, p. 276).

[29] [Do lat. millenium, mil anos] Reino com duração de mil anos a ser instaurado na terra pelo Senhor Jesus logo após o arrebatamento da Igreja e do término da Grande Tribulação (Ap. 20. 4-6). Trata-se de um reino literal, cujo principal objetivo é a exaltação de Jesus como o Messias de Israel e o soberano de todas as nações (ANDRADE, 2007, p. 265).

[30] Cf. Sl 2; 110; 132; Is 11:1-4; Jr 23.15; Mt 2.6 (citando Mq 5:2). As genealogias do Novo Testamento apresentam Jesus como pertencente à linhagem de Davi (Mt 1:6; Lc 3.31,32) (CHAMPLIN, 1995, vol. V, p. 619).

[31] No tocante à Igreja, Geisler (2010, vol. 4, p. 869) diz que embora Cristo jamais seja chamado de Rei da Igreja, com estas palavras, apesar disso, Ele reina sobre ela como o Cabeça de todas as coisas (Ef 1.22).

[32] Aqui temos a caracterização de Isaías de um menino de nascimento miraculoso, um filho como um presente maravilhoso, porque sobre seus ombros Ele veste o símbolo da verdadeira autoridade. [...] Um governo divino como esse experimentará um governo cada vez mais amplo com uma paz inestimável. Sob o seu governo haverá uma justiça estável e ordenada. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isto. Com juízo e em justiça – i.e. “com justiça e retidão” (NVI) (PRICE, Et All, 2009, vol. 4, p. 51, grifos do autor).

[33] Estes versículos estão inseridos no Evangelho segundo Lucas.

[34] O reino dos céus ou reino de Deus é o tema central da pregação de Jesus, segundo os evangelhos sinópticos. Enquanto Mateus, que se dirige aos judeus, na maioria das vezes fala em “reino dos céus”, Marcos e Lucas falam sobre o “reino de Deus”, expressão essa que tem o mesmo sentido daquela, ainda que mais inteligível para os que não eram judeus. O emprego de “reino dos céus”, em Mateus, certamente é devido à tendência, no judaísmo, de evitar o uso direto do nome de Deus. Seja como for, nenhuma distinção quanto ao sentido deve ser suposta entre essas duas expressões (Cf., p. ex., Mt 5.3 com Lc 6.20) (DOUGLAS, Et All, 2006, p. 1148).

[35] No mesmo sentido de “próximo”, inseridos nas versões ARC (Almeida Revista e Corrigida) e na ARA (Almeida Revista e Atualizada).

[36] Segundo Price (Et All, 2009, vol. 4, p. 51), a tradição e a interpretação evangélica tem concordado quase que unanimemente que o primeiro reino seria o do Império Babilônico; o segundo é geralmente reconhecido como o Império Medo-Persa. O terceiro e o quarto têm recebido interpretações divergentes, principalmente entre aqueles que entendem que o quarto reino representa o governo grego ou o governo que sucedeu Alexandre. Isso concentraria as últimas passagens do livro de Daniel no reino de Antíoco Epifânio. Mas, para a maioria, desde os dias de Jerônimo, o terceiro reino tem sido identificado como o reino da Grécia, fundado por Alexandre e o quarto com o reino de Roma.

[37] Cf. Mc 3.13-19.        

[38] Reino – Não no sentido absoluto da palavra (Cf. os capítulos 5 a 7  e o capítulo 13 de Mateus). Jesus explicou a situação aos seus discípulos: “A vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles [os de fora] não lhes é dado” (Mt 13.11). Aqui, Jesus citou Isaías 6.9,10, um texto usado cinco vezes no Novo Testamento, sempre em conexão com a rejeição de Israel ao seu Rei (GEISLER, 2010, vol. 4, p. 885, grifos nosso).

[39] Cerca de 8 meses no “Ministério inicial na Judéia”; 2 anos no “Ministério da Galiléia”; 1 mês no “Ministério posterior na Judéia” e 4 meses no “Ministério na Peréia”. Assim, 3 anos e 1 mês, de acordo com Halley (2001, p. 428, gráfico).

[40] Pôncio Pilatos foi governador romano na Judéia de 26 a 37 d.C. Assumiu o cargo aproximadamente na época em que Jesus começou seu ministério público. Sua residência oficial ficava em Cesaréia. [...] Era impiedoso e cruel, bem conhecido por sua brutalidade (HALLEY, 2001, p. 486).

[41] Foi desta forma reconhecido pelos seus discípulos, que clamavam em alta voz durante sua entrada triunfal em Jerusalém: “Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor!” (Lc 19.38; cf. VV. 39-40; também Mt 21.5; Jo 1.49; At 17.7) (GRUDEM, 1999, p. 527).

[42] Esta última parte da citação, como também os versículos que acompanham, ilustra o Reino de Jesus após sua ascensão.

[43] Ryrie (2004, p. 297) ressalta que, embora Cristo realmente seja Rei, hoje em dia, não governa como rei. Isso ocorrerá apenas na Segunda Vinda. Somente então o reino davídico se tornará uma realidade (Mt 25:31; Ap 19:15; 20).

[44] [Do gr. théantropos.] Cristo, considerado como Deus e como homem (AURÉLIO).

[45] [Do gr. Trias, três; do lat. trinitatem, grupo de três pessoas] Doutrina bíblica segundo a qual a divindade, embora uma em sua essência, subsiste nas Pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. As Três Pessoas são iguais na substância e nos atributos absolutos metafísicos e morais (ANDRADE, 2007, p. 349).

[46] Ibidem. Esta realidade bíblica terá seu cumprimento por ocasião da Vinda de Jesus em Glória na segunda fase da Segunda Vinda, denominado o “Dia do Senhor” (BERGSTÉN, 1999, p. 350).

[47] Geisler (2010, vol. 4, p. 951) explica que o Reino Milenar não será apenas divino, mas também uma monarquia religiosa. O Rei será o Sacerdote (Sl 110), o único objeto de adoração de todas as nações. (Is 66.23).

[48] Período de aflição e angústia incomuns que terá início após o arrebatamento da Igreja (ANDRADE, 2007, p. 204).

[49] Entre aqueles que nascerão durante o Milênio, alguns irão aceitar Cristo como seu Salvador, e outros não. Entre aqueles que negarão Cristo, alguns irão continuar publicamente com o Seu reino, enquanto outros irão se rebelar abertamente contra Ele. Estes últimos serão julgados e morrerão prematuramente (Is 65.20) sob a vara de ferro (Ap 12.5), com a qual Cristo irá esmagar toda a oposição (GEISLER, 2010, vol. 4, p. 950).

domingo, 23 de julho de 2017

A MANIFESTAÇÃO DOS OFÍCIOS EM JESUS - (SACERDOTE) - Por André Rodrigues


Sacerdote no contexto veterotestamentário


Todo estudante das Escrituras percebe que o Antigo Testamento destaca-se,
mesmo como uma questão cultural[1], na prática de ofertas e sacrifícios[2], que são uma constante. Nas questões relativas ao pecado era, dentre outras, função do sacerdote[3] interceder a Deus pelo povo e consequentemente também por si mesmo. Vimos que a relação de Deus com o homem era exercida (em maior parte) através dos profetas. Porém, a representação do povo para com Deus era possível apenas mediante a atuação dos sacerdotes e do sumo sacerdote.

Enquanto os profetas são predominantemente os porta-vozes de Deus e aplicam a palavra de Deus na situação dos seus contemporâneos, os sacerdotes são aqueles cujo a função principal é a de interceder por outros seres humanos na presença de Deus. De forma simples, se o profeta é o representante de Deus diante da humanidade, o sacerdote é o representante da humanidade diante de Deus (LETHAM, 2007, p. 103). 

Os sacerdotes foram constituídos por Deus. Andrade nos mostra que “no Antigo Testamento, era o ministro divinamente designado, cuja principal função era representar o homem diante de Deus” (2007, p. 324). Em harmonia com esse autor, mas explorando as demais funções exclusivas dos sacerdotes, outro escritor destaca:

[...] um sacerdote é: (1.) Um homem devidamente designado para agir em prol de outros homens nas coisas concernentes a Deus. A ideia que jaz no fundamento do ofício é que os homens, sendo pecadores, não têm livre acesso a Deus, portanto, deve-se designar alguém que tenha em si mesmo esse direito, ou que se haja concedido, para que se aproxime de Deus em favor deles. Consequentemente, um sacerdote é, pela natureza de seu ofício, um mediador. (2.) Um sacerdote é designado para oferecer dons e sacrifícios pelos pecadores. Sua função é reconciliar os homens com Deus; fazer expiação pelos pecados deles; e apresentar suas pessoas, confissões e oferendas a Deus. (3.) Ele intercede pelo povo. Isso não meramente como um homem pode orar por outro, mas recomendando a eficácia de seu sacrifício e autoridade de seu ofício com base sobre as quais suas orações devem ser respondidas (HODGE, 2001, p. 830).

Fica claramente exposto nas citações acima que os sacerdotes, mesmo não sendo perfeitos, obtinham em si responsabilidades que parecem ser inigualáveis. Nessa ótica, são diversos os sinônimos para esses homens privilegiados[4]. Dentre eles, podemos destacar o de ser mediador entre Deus e os homens. É tão sublime que soa como uma ideia paradoxal. Corroborando esse pensamento, outro autor argumenta:

A passagem clássica na qual são dadas as verdadeiras características do sacerdote e na qual sua obra é em parte designada, é Hb 5.1. Estão indicados ali os seguintes elementos: (a) o sacerdote é tomado dentre os homems para ser seu representante; (b) é constituído por Deus [...]; (c) age no interesse dos homens nas coisas pertencentes a Deus, isto é, nas coisas religiosas; (d) sua obra especial consiste em oferecer dádivas e sacrifícios pelos homens. Mas a obra dos sacerdotes incluía ainda mais que isso. Ele também fazia intercessão pelo povo (Hb 7.25) e os abençoava em nome de Deus, Lv 9.22 (BERKHOF, 2004, p. 331, grifo do autor). 

Uma vez sabedores das características principais e secundárias dos sacerdotes como também de sua importância no bem viver social-espiritual humano, com relação a Deus, resta-nos saber como se procedeu, de fato, a instituição sacerdotal estabelecida por Deus.  

 Como procedeu a instituição dos sacerdotes

De uma coisa sabemos: “no Antigo Testamento, os sacerdotes eram designados
por Deus para oferecer sacrifícios” (GRUDEM, 1995, p. 525). Mas como explicar o estabelecimento exato dessa classe, que representaria perpetuamente o povo diante de Deus? Halley (2001, p. 127) destaca que “o sacerdócio levítico foi ordenado por Deus para servir de mediador entre Deus e a nação hebraica, mediante a oferta de animais sacrificiais”. Os levitas foram separados por Deus para ficarem à frente dos serviços vinculados ao Tabernáculo e, consequentemente, aos serviços no Templo, posteriormente. De maneira detalhada, esse comentarista acentua:

Os levitas são todos os pertencentes à tribo de Levi, uma das doze tribos de Israel. [...] Deus nomeou os levitas para tomar o lugar dos primogênitos no serviço a Deus[5]. Uma família ou clã dos levitas, a família de Arão, foi separada para o sacerdócio. O restante dos levitas dariam assistência aos sacerdotes. Entre seus deveres estavam o cuidado do Tabernáculo e posteriormente o cuidado do Templo, bem como as funções de mestres, escribas, músicos, oficiais e juízes. [...] A tribo de Levi foi a única que não obteve terras depois de os israelitas terem conquistado Canaã. Em contrapartida, receberam 48 cidades, espalhadas por todas as partes do país (Nm 35.7; Js 21.19). Como não receberam terras, não conseguiam sustentar a si mesmos – seu sustento provinha dos dízimos do restante de Israel (HALLEY, 2001, p. 125).

Dentro dessa perspectiva, agora numa visão centrada exatamente na constituição 
da hereditariedade de Arão para o sacerdócio perpétuo, Gilberto ressalta:

No tocante ao sacerdócio araônico, está escrito: “...ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão (Hb 5.4). A escolha dele para exercer o sacerdócio não se deu devido ao seu parentesco com Moisés. Foi um ato soberano de Deus (GILBERTO, Et All, 2009, p. 144).

Deus, através de Arão, irmão de Moisés, numa escolha importante, constituiu a primeira família da linhagem sacerdotal para a nação. Para uma melhor compreensão dessa escolha de Deus por Arão, devemos salientar que esta escolha não reflete apenas a formação de sacerdotes, mas, através de Arão, nasce também a linhagem de sumo sacerdotes[6], da qual ele foi pioneiro. Halley, de modo acentuado, ao explicar esta consagração de Arão, diz:

Antes da época de Moisés, os sacrifícios eram apresentados pelos cabeças da famílias[7]. Mas, uma vez organizada a nação, consagra-se um lugar para os sacrifícios, preceitua-se um ritual e cria-se um sacerdócio hereditário em uma cerimônia solene. Foi determinado que Arão fosse o sumo sacerdote, e seu filho primogênito, seu sucessor. O sacerdócio era sustentado pelos dízimos (a décima parte da renda familiar – na forma de dinheiro, gado ou produtos agrícolas) e por parte de alguns sacrifícios. Eles receberam treze cidades (Js 21.13-19) (2001, p. 126, 127).

É importante o testemunho de Flávio Josefo, considerado um dos maiores historiadores judeus de todos os tempos em literatura não-canônica. Sendo também de linhagem sacerdotal, viveu entre 37 e 103 d.C., era possuidor de uma capacidade particular  para expressar as raízes elementares deste tão precioso ofício, do qual também descendia. Diz ele:

[...] Tudo estava preparado, e não restava mais consagrar o Tabernáculo. Deus então apareceu a Moisés e ordenou-lhe que fizesse a Arão, seu irmão, sumo sacerdote, porque era mais digno que qualquer outro para esse cargo. Moisés reuniu o povo, falou-lhes das virtudes de Arão e do interesse deste pelo bem público, que tantas vezes o fizera arriscar a vida. E todos não somente concordam com a escolha, mas o aprovam com alegria. Então Moisés assim lhes falou: “Todas as obras que Deus havia ordenado estão terminadas, segundo a sua vontade e segundo as nossas posses. Como vós sabeis, Ele quer honrar este Tabernáculo com a sua presença, mas é necessário, antes de tudo o mais, criar o sumo sacerdote, aquele que é o mais competente para bem desempenhar este cargo, a fim de que cuide de tudo o que se refere ao culto divino e ofereça a Ele os vossos votos e as vossas orações. [...] Deus mesmo, que destinou Arão há muito tempo para esse sagrado ministério, conhecendo-o como o mais justo dentre vós, o mais digno de ser honrado, deu-lhe o seu voto e julgou em seu favor. Assim, Arão oferecer-lhe-á de ora em diante, por vós, orações e votos, e Ele os escutará tanto mais favoravelmente quanto, além do amor que vos tem, eles lhe serão apresentados por aquele que Ele escolheu para ser o vosso intercessor junto dele (Antiguidades Judaicas, Livro 3º, Cap. 9, p. 176, 177). 

Percebe-se, de acordo com as citações acima, que Arão era o sumo sacerdote estabelecido por Deus. Letham (2007, p. 104) descreve que “em Israel, o ofício estava reservado a Arão e os seus descendentes diretos”. Contudo, aos levitas[8], como vimos em momento anterior foram atribuídas as obrigações do exercício sacerdotal. “Isso não significa, porém, que todo o levita fosse sacerdote. No entanto, todo sacerdote tinha de ser necessariamente levita” (ANDRADE, 2007, p. 253). Na ordem das responsabilidades desses levitas, não mais no tempo do Tabernáculo, mas já com a fixação do Templo em Jerusalém, houve a necessidade de reestruturação das atividades exercidas por eles. Uns dedicaram-se à fiscalização do serviço do Templo; outros agiam como porteiros; e ainda alguns se portavam como músicos. Comenta-se que provavelmente havia um coral com quatro mil vozes de levitas. Em uma escala de serviço específico, destacam-se alguns levitas como oficiais e juízes de Israel, como também aqueles que estariam à disposição dos negócios do rei. Concluímos, portanto, que a separação dessa tribo efetuada por Deus transcenderia os serviços ligados a Ele e entraria numa esfera de atuação de grande valor também no “governo civil” (HALLEY, 2001, p. 222). 

Além dessa ordem estabelecida por Deus para o bem-estar do povo havia, no cenário veterotestamentário, outra ordem misteriosa, da qual trataremos a seguir.


A enigmática ordem de Melquisedeque


         Fica claro que “no Antigo Testamento não havia apenas uma única ordem de sacerdotes, mas duas” (LETHAM, 2007, p. 107): a procedente de Arão e outra, um tanto quanto misteriosa, tendo Melquisedeque[9] como principal personagem[10]. As questões relacionadas a esse “Rei-Sacerdote” dão espaço principalmente às especulações tradicionais da história do povo judeu. Por exemplo: “Uma tradição hebraica diz que se trata de Sem, filho de Noé[11] e sobrevivente do dilúvio – que ainda vivia como o homem mais velho da época no mundo. “Na era patriarcal, ele seria sacerdote de toda a espécie humana” (HALLEY, 2001, p. 92). Somando-se a essa citação, Soares diz que “Muitos rabinos da antiguidade afirmam ser ele Sem, o mais velho sobrevivente do dilúvio, pois se recusam a admitir a idéia de Abraão ter dado os dízimos a um estrangeiro” (2008, p. 116). Toda essa problemática deve-se ao fato de que a menção escriturística acerca de Melquisedeque é restrita, ocorrendo apenas em Gn 14.18ss e Sl 110.4. Portanto, ninguém conhece de modo preciso toda a história desse homem.
O que se pode afirmar, com respaldo bíblico resumido, é que Melquisedeque de fato era “o honorável sacerdote-rei de Salém (Jerusalém) [...] que pronunciou uma bênção a Abrão” (LIVINGSTON, Et All, vol. 1, 2009, p. 61, grifo do autor). Um breve relato é ressaltado acerca dele pelo historiador:

O rei de Sodoma veio até ele no lugar a que chamam Campo Real, onde o rei de Salém, que agora é Jerusalém, o recebeu com grandes demonstrações de estima e de amizade. Esse príncipe chamava-se Melquisedeque, isto é, “rei justo”. E ele era verdadeiramente justo, pois a sua virtude era tal que, por consentimento unânime, havia sido feito sacerdote do Deus Todo-poderoso. Ele não se contentou em receber apenas a Abraão, mas também a todos os seus. Deu-lhes, no meio dos banquetes que realizou, os louvores devidos à sua coragem e virtude e prestou a Deus públicas ações de graças por tão gloriosa vitória. Abraão, por sua vez, ofereceu a Melquisedeque a décima parte dos despojos que tomara dos inimigos, e este aceitou (JOSEFO, Antiguidades Judaicas, Livro 1º, Cap. 10, p. 92, 93).

Dá para se perceber quão complexa é a figura de Melquisedeque. Entretanto, para
facilitar a compreensão acerca deste misterioso personagem, outro ponto a considerar é que Melquisedeque é tipo de Cristo, ou seja, exercia um sacerdócio semelhante ao que seria exercido por Jesus no Novo Concerto sacerdotal, ou seja, uma nova dispensação. “Jesus não poderia ser um sacerdote em Israel. Ele não era um membro da tribo de Levi, e menos ainda da família de Arão. Portanto, ele simplesmente não era qualificado” (LETHAM, 2007, p.105). Contudo: 

Os profetas prediziam que Jesus viria como sacerdote eterno (cf. Sl 110.4). Quando Ele veio, foi identificado como o sumo sacerdote prometido (cf. Hb 2.17; 3.1; 4.14, 15; 5.6,10; 8.1; 10.21). [...] Jesus, como sacerdote conforme a ordem de Melquisedeque, evidencia que o seu sacerdócio não era da Lei, mas sim de uma nova dispensação. Conforme aquela dispensação, Jesus jamais poderia ser sacerdote, porque estes eram todos da tribo de Levi (cf. Nm 18.27; 1Cr 23.13), enquanto Jesus era da tribo de Judá (cf. Hb 7.13,14).

Assim, ele foi sacerdote chamado por Deus. “Jurou o Senhor: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7.21). Jesus, sacerdote conforme a ordem de Melquisedeque, chama a atenção para o fato de que Ele, assim como Melquisedeque, era tanto rei como sacerdote. Assim como Melquisedeque foi chamado “rei de justiça” (Hb 7.2), Jesus também o foi (cf. At 22.14; Jr 23.6; 1Jo 2.1). Assim como Melquisedeque foi chamado “rei de paz” (cf. hb 7.2), Jesus também o foi (cf Is 9.6). Nenhum dos sacerdotes levíticos foi sacerdote e rei. Mas Jesus era tanto sacerdote como Rei (cf. Zc 6.13) (BERGSTÉN, 1999, p. 61, 62).    

Talvez isso explique o fato de que informações precisas acerca de Melquisedeque tenham sido encobertas, por ser ele exatamente um sacerdote tipo de Jesus, ou seja, um mistério que estaria por revelar-se. Letham afirma que sua pessoa “estimulou desde a antiguidade a imaginação dos judeus” (2008, p. 114). Como tipo do que deveria vir, pensa-se: “Assim como o misterioso rei da época cananeia era também sacerdote, Aquele que se esperava devia também assumir uma função sacerdotal que se elevasse muito acima do sacerdócio ordinário, que não perecesse, mas que fosse eterno” (IBIDEM). 

Nessa nova dispensação sacerdotal, é possível sim observar sua superioridade em relação à outra. Acerca da antecipação dessa nova ordem sacerdotal à ordem arônica, o autor a seguir faz uma importante declaração: 

O escritor aos Hebreus chama a atenção, ainda, para alguns detalhes do curto relato do encontro de Abraão com Melquisedeque, como a menção dos dízimos e o fato de Abraão ser abençoado por ele (Gn 14.19, 20; Hb 7.6), revestindo de significado espiritual extraordinário. No sistema arônico, o dízimo era estabelecido pela lei e era tomado do povo (Nm 18.21; Hb 7.5), mas Abraão o fez espontaneamente. Nesse caso até Levi, bisneto de Abraão, pagou dízimo “por que ainda ele estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hb 7.9). Assim, o patriarca, fundador da nação de Israel, foi abençoado, isso revela sua estatura espiritual visto que “o menor é abençoado pelo maior” (Hb 7.7), mostrando a superioridade da ordem de Melquisedeque (SOARES, 2008, p. 116, 117, grifo meu).  

É notória uma elevada perfeição na ordem de Melquisedeque, principalmente na pessoa de Jesus como seu antítipo. A explicação dessa superioridade encontra-se na explicação exegética do Salmo 110.4, que nos revela detalhes dessa ordem. O comentarista abaixo, fazendo um paralelo com a carta aos Hebreus, diz:

As funções de rei e sacerdote estão combinadas em Senhor. Este versículo é citado seis vezes em Hebreus (5.6, 10; 6.20; 7.11, 15, 21), onde o autor ressalta que o sacerdócio de Cristo é de uma ordem diferente e superior à de Arão, a saber, um sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque. Como tal, ele não depende de linhagem humana (Hb 7.3). Ele era anterior e melhor do que o sacerdócio dos filhos de Levi (7.4-10). Esse sacerdócio indica uma mudança na lei (7.11-12). Ele explica como Jesus, sendo da tribo de Judá e não da de Levi, podia ser sacerdote (7.13-14). Esse sacerdócio era assegurado e fundamentado pelo juramento do Senhor (7. 20-22). E, visto que é eterno, não sujeito a uma sucessão humana de sumos sacerdotes, ele é a base da nossa salvação completa e eterna (7.23-28). Mesmo o nome Melquisedeque é significativo, um aspecto que tornava a terminologia do salmista especialmente importante. Melquisedeque significa “rei da justiça”. Ele foi identificado em Gênesis 14.18-20 como “rei de Salém”, que significa “rei de paz”. Ele era reconhecido como “o sacerdote do Deus Altíssimo” setecentos anos antes de ser instituído o sacerdócio levítico. No sacerdote régio de justiça e paz temos um tipo de Cristo, que unifica nele mesmo as funções de profeta, sacerdote e rei do AT (CHAPMAN, Et All, vol. 3, 2009, p. 283, grifos do autor).

Concluímos que, mediante o sacerdócio deste enigmático Melquisedeque, abre-se um precedente tipológico que serviria como exemplo para o ministério sacerdotal de Cristo, o qual transcenderia qualquer ordem anterior ou posterior (caso houvesse). Assim, nessa ordem segundo Melquisedeque, Jesus se destaca como sendo “um grande Sumo Sacerdote, que está de pé e pronto para vir em auxílio dos que passam por provações (Hb 2.18) e ansioso para dar graça para ajudar nos momentos de necessidade (Hb 4.16) (RYRIE, 2004, p. 296). 

Jesus, o Perfeito Sumo Sacerdote

O exercício sacerdotal de Jesus é superior a qualquer outro conhecido. Na ordem
sacerdotal proveniente de Arão, a atuação dos sacerdotes[12] e sumo sacerdotes resumia-se ao Tabernáculo e, posteriormente, ao Templo, cada um com sua função específica estabelecida pela Lei. Jesus é mostrado na epístola aos Hebreus como o maior de todos os Sumos Sacerdotes. Esse ofício, largamente descrito no Antigo Testamento, tinha uma importância singular no que diz respeito às relações do povo para com Deus. Letham nos mostra quatro principais razões para entendermos essa tão preciosa relevância:

Primeiro ele era o representante de Israel na presença de Deus. O peitoral inconfundível que ele vestia continha doze pedras preciosas, com os nomes das doze tribos de Israel gravados nelas (Êx 28.17-21). Cada vez que ele entrava na presença de Yahweh[13], ele levava essas pedras preciosas com ele (Êx 28.29), indicando que ele estava lá no lugar do povo com o qual Yahweh havia entrado em um pacto. Em segundo lugar, ele tinha funções proféticas. O urim e o tumim[14] também deviam se encontrar no peitoral (Êx 28.30).
Com a ajuda deles, o sacerdote poderia declarar a vontade do Senhor em determinado assunto. Uma vez que os profetas surgiram esses objetos caíram em desuso. [...] Em terceiro lugar, o sumo sacerdote compartilhava com todos os sacerdotes o pronunciamento da bênção sobre Israel, declarando a bênção pactual de Yahweh (Nm 6.22-27). Em quarto lugar, enquanto o sacerdócio em geral presidia sobre a oferta dos sacrifícios diários, apenas o sumo sacerdote estaria envolvido no ritual do Dia da Expiação (Lv 16)[15]. Em essência, a sua função era expiatória[16] e propiciatória[17] (2007, p. 104, 105).

O sumo sacerdote era o oficial representante do povo perante Deus. Jesus se fez carne, e, dentre os seus muitos desígnios, também estava o de ser eterno representante daqueles que o seguissem. Nesse ofício, Cristo segue o padrão do sacerdócio araônico. Entretanto, a alusão a Melquisedeque como um tipo seu ilustra bem sua autoridade real, sua eternidade, como também a natureza perpétua de sua obra (GILBERTO, Et All, 2009, p. 145). Grudem (1999, p. 525) afirma que “Jesus preencheu todas as expectativas que prefigurou, não apenas nos sacrifícios do Antigo Testamento, mas também na vida e ação dos sacerdotes que os ofereciam: ele era tanto o sacrifício quanto o sacerdote que oferecia o sacrifício”. Disse isto, o autor, ao tratar da morte de Jesus[18] na cruz do Calvário, que se tornou um sacrifício perfeito. Corroborando esse pensamento, outro escritor argumenta:

No Antigo Testamento, os sacerdotes ofereciam cordeiros e bodes pelos pecados do povo. (Hb 10.4) Cristo, porém, o grande Sumo Sacerdote (Hb 7.26, 27) sacrificou-se a si mesmo, sendo sacerdote e sacrifício numa só pessoa (Hb 9.12-14; Ef 5.4). [...] Cristo cumpriu seu ofício sacerdotal, prestando perfeita obediência a seu Pai, o qual, unicamente levado por amor, entregou seu filho unigênito para redenção do mundo (Jo 3.16; 1.29). A Escritura descreve convenientemente a obra redentora de Cristo como obediência a Deus. [...] A obediência vicária de Cristo compreende em si: a) obediência ativa, pela qual nosso divino substituto se sujeitou à obrigação da Lei de Deus, cumprindo-a por nós mediante a sua vida perfeita e santa (Gl 4.4,5; Rm 5.19; Mt 3.15) b) sua obediência passiva, pela qual se submeteu à maldição da Lei62, padeceu e morreu pelos pecados do mundo (Hb 9.12; Ef 5.2; Is 53. 4-6). Dessa maneira, por sua vida santa e morte inocente, Cristo nos adquiriu aquele mérito divino que é a nossa justiça perante Deus para a salvação (Rm 3.22-25; 2Co 5.19-21) (MUELLER, 2004, p. 299, grifo meu).

Portanto, depois de sua morte sacrificial, Jesus torna-se o nosso Sumo Sacerdote, ou seja, aquele a quem podemos recorrer, porque Ele próprio conhece todas as dificuldades humanas. Disse o anônimo escritor da carta aos Hebreus: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15 ARC). As qualidades de Cristo como sumo sacerdote são expostas, de forma enfática, na epístola aos Hebreus (LETHAM, 2007, p. 109). 

O autor também ressalta:

Ele mesmo é plenamente humano, tendo participado da nossa carne e sangue. Ele sofreu, suportou tentações e experimentou a morte (2.11-18). Logo, ele permanece em solidariedade com aqueles que apresenta. Em 5.110, isso é colocado de forma mais ampla. Ele foi um conosco na fraqueza humana. Suas orações foram oferecidas a Deus com forte clamor e lágrimas. Ele aprendeu a obediência por meio do sofrimento (5.7-8). Portanto, ele é capaz de simpatizar conosco em nossas dificuldades (4.14, 15). Ele está equipado para nos representar diante de Deus, pois ele conhece os problemas que enfrentamos (5.1, 2). Além do mais, assim como Arão, ele foi comissionado por Deus. Ele não buscou o sumo sacerdócio perfeitamente, pois ele enfrentou a tentação com sucesso, e saiu imaculado da provação (4.14-16; 7.26, 27; 10.5-10). Seu aprendizado da obediência por meio do sofrimento (5.8) não foi um progresso de desobediência à obediência, mas, antes, foi todo um desenvolvimento ao longo de toda a sua vida de um a que a morte de Cristo foi: Pré-determinada; voluntária; vicária; sacrificial; expiatória; propiciatória; redentora e substitutiva (2006, p. 145-152). Outros ainda defendem de modo semelhante.  

Essas qualidades e principalmente as que se relacionam com a intercessão de Jesus por nós são criticadas por alguns estudiosos. Esses são os que afirmam serem estes ofícios profético, sacerdotal e régio, no sentido que é aplicado a Cristo, “apenas descrições figuradas dos diferentes aspectos da obra realizada por Cristo” (BERKHOF, 2001, p. 335), negando seu verdadeiro significado prático. Como nesta discussão está em pauta o ofício sacerdotal, dizem que Cristo, como sacerdote eterno, ou seja, aquele que intercede constantemente pelos seus, é apenas simbólico, não havendo uma concretização de sua intercessão literal local, mas essa intercessão dá-se somente com sua presença diante do Pai. 

Alguns têm argumentado que essa obra de intercessão como sumo sacerdote é apenas a permanência na presença do Pai como lembrete contínuo de que ele mesmo pagou a pena por todos os nossos pecados. De acordo com esse ponto de vista, Jesus não faz de fato orações específicas a Deus Pai por causa das necessidades individuais que enfrentamos na vida, mas “intercede” apenas no sentido de permanecer na presença de Deus como nosso sumo sacerdote que nos representa (GRUDEM, 1999, p. 526).

Berkhof, entretanto, afirma que “é um triste engano supor que Ele só é sacerdote num sentido figurado” (2001, p. 335). “Apesar de Cristo haver oferecido um sacrifício perfeito ‘de uma vez por todas’, sua obra sacerdotal ainda continua. Ele vive para aplicar os méritos e o poder de sua obra expiatória perante Deus, a favor dos pecadores”. Esse mesmo autor conclui: 

O mesmo que morreu pelos homens agora vive para eles, para salvá-los e  para interceder por eles. E, quando oramos “em nome de Jesus”, estamos pleiteando a obra expiatória de Cristo como a base da nossa aceitação, porque somente por ela temos a certeza de ser aceitos “gratuitamente no amado” (PEARLMAN, 2006, p. 171). 

Dessa forma, Jesus é o Sumo Sacerdote Perfeito, que intercede pelos seus a todo instante. O apóstolo Paulo enfatiza: “Pois é Cristo que morreu ou, antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós” (Rm 8.34, ARC). Somando-se a essa citação, o escritor aos Hebreus afirma que Jesus vive sempre intercedendo por nós: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25, ARA, grifo nosso). O ministério sacerdotal de Jesus é, por conseguinte, iniciado antes de sua morte, entretanto, de maneira indistinta. “O trabalho de intercessão ele realizou, de alguma forma, quando ele esteve na terra (Jo 17)[19]” (SEVERA, 1999, p. 241). Porém, depois da oferta do seu sacrifício vicário propriamente dito, é que Cristo passou a exercer, “especificamente, esse ministério de intercessão (Hb 7.25; 9.24). A base da Sua intercessão é o Seu sacrifício (1Jo 2.1, 2)”[20]

Segue-se daqui que é ele o eterno intercessor, pelo auxílio de quem conseguimos favor. De onde, por outro lado, nasce não somente confiança em orar, mas também tranquilidade às consciências piedosas, enquanto, em segurança, se reclinam na paterna indulgência[21] de Deus e estão, com toda certeza, persuadidas de que lhe agrada tudo quanto é consagrado através do mediador. Embora, na verdade, sob a Lei haja Deus ordenado se lhe oferecessem sacrifícios de animais, diversas e nova foi a disposição em Cristo, assim que o mesmo que era o sacerdote fosse também a vítima, porquanto nem se podia achar outra satisfação idônea pelos pecados, nem alguém digno de tão elevada honra que pudesse oferecer o Unigênito à Deus (CALVINO, 1985, vol. 2, p. 267, 268).

Dentro dessa linha exposta por Calvino, conclui-se que Cristo é o eterno intercessor. Intercedeu, desde a fundação do mundo[22], na disposição para sua vinda a esta terra, exposta pelo Pai na promessa de redenção; intercedeu quando do Seu ministério terreno, o qual foi consumado com Sua morte na cruz; e vive intercedendo por nossas transgressões junto ao Pai. Mediante esta última consideração, percebe-se que este é o importante papel de Jesus como o Perfeito Sumo Sacerdote. Disse o anônimo escritor aos Hebreus:

Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção. Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os santificam, quanto a purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servimos ao Deus vivo! Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém, no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus; nem ainda para se oferecer a si mesmo muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santo dos Santos com sangue alheio. Ora, neste caso, seria necessário que ele tivesse sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo; agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado. E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que aguardam para a salvação (Hb 9. 11-14, 24-28, ARA).  

Artigo extraído de: RODRIGUES, André. O Tríplice Ofício de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei. 2011, Editora Nossa Livraria - PE

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[1] Deus colocou o sistema sacrificial no cerne da vida nacional judaica. Quaisquer que fossem suas aplicações e implicações imediatas para os judeus, o sacrifício perpétuo de animais e o arder perpétuo do fogo dos altares por certo existiam, segundo o designo de Deus, para gravar na consciência do povo de Israel a percepção de que eles eram profundamente pecaminosos. Além disso, serviram durante mais de mil anos, como figura que prenunciava o sacrifício de Cristo na cruz, ainda no futuro (HALLEY, 2001, p. 127).

[2] Soares diz que o sacrifício é o tema central do Antigo Testamento. Isso salta à vista de qualquer leitor assíduo da Bíblia. Essa prática, segundo ele, é tão antiga quanto a humanidade (Gn 4.4; 8.20) (2008, p. 113).

[3] A palavra hebraica para sacerdote é kõhen, “autoridade principal ou oficial mor, sacerdote” (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTKE, 1998, p. 704, apud SOARES, 2008, p. 112). Vine diz que esta palavra é achada 741 vezes no Antigo Testamento (2004, p. 271). O termo kõhen era usado para se referir não só ao sacerdócio hebraico, mas aos “sacerdotes” egípcios (Gn 41.50; 46.20; 47.26), aos “sacerdotes” filisteus (1Sm 6.2), aos “sacerdotes” de Dagom (1Sm 5.5), aos “sacerdotes” de Baal (2Rs 10.19), aos “sacerdotes” de Quemós (Jr 48.7), e aos “sacerdote de Baalins e de Aserá (2Cr 34.4,5). O oficio sacerdotal judaico foi estabelecido pelo Senhor nos dias de Moisés. Mas antes da instituição do sumo sacerdócio e do ofício sacerdotal, lemos do sacerdócio de
Melquisedeque (Gn 14.18) e dos “sacerdotes” midianitas (Êx 2.16; 3.1; 18.1). Em Êx 19.24, são mencionados outros “sacerdotes”: pode ser que eram “sacerdotes” midianitas” ou “sacerdotes” de Israel antes do estabelecimento oficial do sacerdócio levítico (VINE, 2004, p. 272). 
[4] Privilegiados no sentido de constituídos por Deus para tal ofício.
[5] Quanto à tomada deste lugar, ou seja, “no serviço a Deus”, no dizer de Halley, como Deus poupou os primogênitos de Israel na última das pragas contra o Egito (Êx 11.4 – 12.13), todos os filhos primogênitos e todos os animais primogênitos pertenciam a Deus. Os animais eram sacrificados, ao passo que os homens eram redimidos. Para redimir o primogênito, a família pagava um preço ao sacerdote, em vez de entregá-lo para o serviço do Templo (2001, p. 125).
[6] [Do hb. Cohen gadol; do lat. Summus pontifex] O principal entre os sacerdotes. No sistema levítico, era o responsável pelo culto, adoração e sacrifício na congregação dos filhos de Israel. Sua maior função era representar os israelitas diante de Deus, e por eles fazer expiação. A intercessão era a base deste ministério exclusivo do Antigo Pacto (ANDRADE, 2007, p. 335).

[7] Pode também ser entendido como “patriarca”, ou seja, o chefe da família.
[8] Nome dado aos descendentes da Tribo de Levi.

[9] Este nome vem de duas palavras hebraicas (melek), “rei” e (tsedeq), “justiça, retidão” (SOARES, 2008, p. 116). Neste caso a palavra significa literalmente Rei de Justiça (BOYER, 2006, p. 429).

[10] Letham (2007, p.107) destaca que o sumo sacerdote Melquisedeque não teve que estabelecer sua legitimidade pelo apelo à antiguidade. Na verdade, todas as referências à antiguidade de Melquisedeque e ao seu período de vida são omitidas em Gênesis, um ponto que é desenvolvido em Hebreus. 

[11] Esta possibilidade disposta na tradição judaica entra em contradição com o testemunho neotestamentário, observado pelo escritor aos Hebreus, quando enfatiza: “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas, sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (Hb 7.3, ARC).
[12] No tocante a atuação dos sacerdotes, confira a seção 2.4.

[13] Transliterando: Javé, Jeová.

[14] Expressão hebraica que significa, provavelmente, luzes e verdades. Embora não seja possível precisar em que consistia este objeto usado pelo sumo sacerdote hebreu, supõe-se ter sido algo através do qual podia ele, desde que em plena comunhão com Deus, buscar a vontade divina acerca de determinados fatos (Êx 28.30; Lv 8.8; Dt 33.8) (ANDRADE, 2007, p. 354). Representavam juízo concernente à vontade de Deus. O sumo sacerdote era o juiz do povo e fazia suas resoluções servindo-se destas pedras. Simbolizavam poder e sabedoria na tomada de decisões (LIVINGSTON, Et All, vol. 1, 2009, p. 215, grifo do autor). 

[15] O dia anual da expiação (ainda hoje celebrado no judaísmo com modificações e conhecido por seu nome hebraico: yôm kippûr) era celebrado no décimo dia do sétimo mês (tisri [...]). Era o dia mais solene do ano. Em cada uma dessas ocasiões, a eliminação do pecado era válida para um só ano (Hb 10.3), mas prenunciava o futuro cancelamento eterno dos pecados (Zc 3.4, 8, 9; 13.1; Hb 10.14). Depois de oferecido o bode sacrificial, o sumo sacerdote impunha as mãos sobre a cabeça do bode emissário e confessava sobre ele os pecados do povo. Em seguida, esse bode era enviado ao deserto levando consigo os pecados do povo. Essa cerimônia foi uma das prefigurações históricas, oferecidas por Deus, da futura expiação do pecado humano por meio da morte de Cristo (HALLEY, 2001, p. 128).  

[16] A palavra “expiação” vem do termo hebraico cofer. Trata-se de um substantivo do verbo caufar, cobrir. O cofer ou a cobertura era o nome da tampa ou cobertura da arca da aliança e constituía o que era chamado propiciatório. A palavra grega traduzida por expiação é katallage. Isso significa reconciliação com o favor ou, mais estritamente, os meios ou condições para que haja reconciliação com o favor; de katallasso, “mudar ou trocar”. O significado estrito do termo é substituição [...] a expiação é a substituição governamental da punição dos pecadores pelos sofrimentos de Cristo. São os sofrimentos de Cristo cobrindo os pecados dos homens (FINNEY, 2009, p. 280, 281).

[17] Propiciação [Do lat. Propitiatio, tornar favorável] Doutrina segundo a qual o sacrifício de Cristo, no Calvário, tornou Deus favorável à humanidade caída e enferma pelo pecado (I Jo 2.2). Esta doutrina está ligada, essencialmente, ao ministério sacerdotal de Cristo (I Jo 4.10) (ANDRADE, 2007, p. 306).

[18] Algumas teorias são apresentadas pela maioria dos teólogos, com a finalidade de explicar a obra da expiação executada por Cristo. Horton apresenta cinco teorias: A da Influência Moral; do Resgate; da Satisfação; Teoria Governamental; e a Teoria da Substituição Penal (Et All, 2010, p. 346-350). Strong diferencia com três e concorda apenas com uma, quando, conseqüentemente, aplica quatro em sua obra: Moral; Comercial; Legal e Sacrificial (2003, p. 380-383). Bancroft faz alusão para alguns pontos de vista que considera como errôneos, acerca da natureza da morte de Cristo, e apresenta negativamente cinco teorias: A teoria de acidente; A de morte de mártir; A teoria da influência moral; A governamental e A teoria do amor de Deus. Como positivas destaca
[19] O capítulo 17 do Evangelho segundo João é comumente conhecido como o capítulo da “Oração sacerdotal de Jesus”.

[20] Ibidem.

[21] De acordo com Andrade, deriva do latim indulgentia, e significa: “clemência, misericórdia, perdão” (2007, p. 228).

[22] A expiação teve sua origem na eternidade. Sua fonte foi Deus. A expiação era um fato implícito no coração de Deus antes de tornar-se um fato explícito na história do homem  –  um fato da eternidade antes de tornar-se um fato do tempo (BANCROFT, 2006, p. 149).  
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